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segunda-feira, 1 de abril de 2013

Golpe de 1964: Não esquecemos a ditadura, assassinatos e torturas!



Alessandro de Moura

Coração? Tambor rufando.
Beba e celebre! Desata
nas veias a primavera!
Coração, bate e combate!
O peito - bronze de guerra.
(Nossa marcha - Mayakovsky)


A juventude precisa desvelar o passado vorazmente em busca do que pode servir de arma para desatar o futuro e as veias da primavera. Somos parte da juventude que tem memória e tira lições das principais batalhas na luta de classes e dos principais conflitos sociais. Em abril de 2011 completaram-se 47 anos do golpe militar-burguês no Brasil. (Veja o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=7w-jb2NDhdU&feature=player_embedded). A partir do golpe, abriu-se um processo de intensa perseguição às trabalhadoras e trabalhadores agrícolas que lutavam pela reforma agrária, ao movimento operário e demais ativistas que pressionavam o governo contra a desigualdade social, baixos salários e a concentração de terras imposta pelas classes dominantes.
Durante o período 1955-1964 agudiza-se sobremaneira as lutas sociais no Brasil. No inicio da década de 1960 abrira-se no país um processo pré-revolucionário, o proletariado do campo e das cidades recusava-se a aceitar as condições sociais, econômicas e políticas vigentes, ao mesmo tempo, as classes dominantes já não conseguiam manter sua hegemonia. No entanto, o governo não cairia se não fosse derrubado. Na primeira metade da década de 1960 diversas frações do proletariado organizam-se para lutar por melhores condições de vida. Sobre o protagonismo das Ligas Camponesas, desencadeia-se importante luta contra a concentração de terras, latifúndios e a estrutura agrária. Nas forças armadas destacam-se setores rebelados do exército. Também o movimento operário vive um de seus períodos mais ativos, protagonizam passeatas de 500 mil pessoas contra a fome “Passeatas da Panela Vazia” e também a greve dos 300 Mil, de março-abril de 1953. Em outubro de 1957 eclode a greve dos 400 mil. Em outubro de 1962 é desencadeada a greve dos 700 mil. O desenvolvimento do ativismo destes setores sociais, que delineava a crise social, política e econômica, marcará um período pré-revolucionário que se abrirá no Brasil.
Em 1961 tem-se a renuncia de Jânio Quadros, como conseqüência da renúncia, Leonel Brizola e o PTB empreendem no sul grande movimento pela legalidade, para que o vice de Jânio, João Goulart assumisse a presidência. Organiza-se em Porto alegre o “Comitê de Resistência Democrática”, ainda que de forma propagandistica, armas são distribuídas a setores de confiança de Leonel Brizola, que chega a declarar que estava preparado para marchar com 90 mil homens armados contra Brasília e dissolver o Congresso, caso João Goulart fosse impedido de assumir o governo. Jango assume, mas a crise de poder persiste.
Com o golpe militar-burguês, o Estado burguês assume modulo de guerra contra o proletariado organizado. Esta foi a forma a encontrada pela burguesia agrária e urbana para por fim ao ascenso da luta de classes que se desenvolvia no campo e as cidades, ameaçando gravemente a estabilidade do regime. Com a força das armas, o governo buscava fazer refluir a organização crescentes das classes trabalhadoras. Este importante processo histórico carece ainda de estudos críticos que possam averiguar as responsabilidades pelas perseguições, assassinatos e torturas cometidas contra os setores organizados da sociedade. Poder-se-ia clarificar muito as relações da burguesia e do patronato com o golpe militar-burguês se fossem abertos os “arquivos da ditadura”, porém também neste aspecto, exercito e burguesia estão unificados para ocultar seus crimes.
Cabe a juventude mostrar que não esquecemos a ditadura, assassinatos e torturas. Continuamos combatendo os resquícios do regime militar. Temos que derrubar a Lei da Anistia, lutar por uma Comissão Nacional de Memória e Verdade que seja independente do governo, dos militares e das forças repressivas! Só assim podemos punir todos os torturadores, mandantes e empresários que apoiaram a financiaram o regime militar-burguês. Somos pela imediata e irrestrita abertura dos arquivos. Pela investigação, julgamento e condenação de todos os civis e militares envolvidos nos crimes políticos de Estado durante a ditadura. Torturador tem que pagar. Pela dissolução de todos os atuais organismos de vigilância aos movimentos sociais e organizações operárias que são extensão e continuidade dos órgãos criados pelo regime militar-burguês.

OS SUJEITOS

São três os principais sujeitos coletivos que protagonizaram o ascenso proletário anterior ao golpe. As Ligas Camponesas, os militares de baixa patente e o movimento operário.
Já no inicio da década de 1950, parte significativa do proletariado agrícola se re-organiza por meio das Ligas Camponesas. Sendo que “Em fins dos anos 1950, as Ligas Camponesas contavam com 35 mil associados em Pernambuco e 70 mil em todo o Nordeste”. (SALLES & MATOS, 20007[1]). Durante a década de 1960 a organização das Ligas intensifica-se, em 1963 atingiam 18 dos 22 estados brasileiros existentes à época, com 218 Ligas no total concentradas sobretudo no Nordeste, mas também em estados importantes do centro sul, segundo os números que seguem: 64 ligas em Pernambuco, 15 na Paraíba, 12 no Maranhão, 10 no Ceará e 9 na Bahia, 15 em São Paulo, 14 no Rio de Janeiro, 12 em Goiás e 11 Espírito Santo. Em seu momento de auge, as Ligas afirmavam contar com 500 mil afiliados. Além das Ligas Camponesas, também era crescente o número de sindicatos rurais organizados pelo proletariado agrícola, em números oficiais, os sindicatos rurais no país passaram de 6 em 1961, para 60 em 1962 e 270 no inicio de 1963, saltando para 1300 justamente nas vésperas do golpe contra-revolucionário.
O expressivo crescimento das Ligas e sua atividade permanente colocavam em risco a manutenção dos lucros do patronato agrícola, a propriedade privada em posse dos latifundiários, e assim a própria estrutura fundiária no Brasil. Sob o consigna “reforma agrária na lei ou na marra!”, as Ligas reivindicavam a utilização de métodos de guerra civil no campo para impor o fim do latifúndio. Desta forma, exerciam intensa pressão sobre os grandes proprietários, sobre os governos locais, estaduais e o patronato agrícola. Articulado o governo e as classes dominantes, sustentavam grupos paramilitares para combater o proletariado agrícola com métodos de guerra civil, como se dava no caso da região de Alagoas. Ou seja, o patronato e a burguesia do campo respondiam ao ascenso camponês com repressão armada, atentados e assassinatos de militantes e suas famílias.

OS MILITARES

Além dos levantes do proletariado das cidades, também setores do exército estavam se organizando e se rebelando com tendências a unificação de pautas com o conjunto do movimento que se desenvolvia no campo e na cidade; estes deveriam ter sido organizados para atuar em conjunto com o proletariado do campo. A década de 50 e 60 foi marcada por um intenso processo de politização nas Forças Armadas, percorrendo desde o alto-comando até as bases e passando por toda a oficialidade ’ um período marcado por um importante peso dos militares na vida política nacional: a tentativa de golpe militar contra Vargas em 1953, a “Novembrada” em 1954, o peso determinante de Lott na estabilidade do governo JK e a tentativa de golpe militar em 1961. As divisões entre as distintas frações burguesas e a polarização de classes atravessavam o Exército e as demais Armas, reunindo de um lado os setores que se ligavam ao trabalhismo e apoiavam o ascenso popular e de outro os setores mais diretamente pró-imperialistas e que se ligavam à UDN. A partir de 1961, as divisões que até então se expressavam predominantemente entre setores da oficialidade e do alto-comando, passaram a se expressar também com revoltas das bases contra o alto-comando e tendências à ligação dos soldados e sub-oficiais com o movimento operário e camponês.
Em 1962 setores das forças armadas criaram uma forma de sindicato para organizar as reivindicações dos militares, constituíram a Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil – AMFNB. Esta associação tinha acordo com as demandas das Ligas Camponesas por reforma agrária e queriam contribuir para a organização dos trabalhadores e trabalhadoras. Os militares de baixa patente eram oriundos da classe trabalhadora e também sofriam intensa opressão nas Forças Armadas, comiam em cozinhas separadas, não podiam ouvir rádio, não podiam se casar, nem votar ou serem eleitos e seus salários não chegavam sequer um salário mínimo. A AMFNB foi a forma sindical encontrada para lutar por suas demandas imediatas. No entanto, com a agudização da luta de classes no país este sindicato politizou-se rapidamente e avançando para constituição de elementos de autorganização, até que em 1963 eclodiu a “revolta dos sargentos”. (SALLES; MATOS, 2007).
Nas cidades, os trabalhadores e trabalhadoras organizam-se contra as condições paupérrimas que lhe eram impostas, utilizando-se de suas tradicionais formas de luta: greves, piquetes e paralisações. Assim, Entre 1961 e 1963, o processo dá um novo salto, quadruplicando o número de greves econômicas nos serviços e na indústria. Os grevistas chegam a 5,6 milhões, caracterizando o maior ascenso grevístico da história do país até aquele momento. Em março de 1963, via Federação de Metalúrgicos do Estado de São Paulo, desencadeia-se uma greve que envolve 220.000 trabalhadores, que durou três dias. Em outubro a greve dos 700 mil atingiu 40 cidades do interior paulista, englobando 80 sindicatos de 11 categorias. Porém o movimento operário, articulado por meio do CGT-PCB, vive os processos organizativos quase que isolado da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil (AMFNB) e das Ligas Camponesas. As greves representaram um pico na ação conjunta e organizada da classe a nível nacional, no entanto, foram ainda mobilizações controladas, organizadas pela burocracia do CGT para demonstrar seu apoio político a João Goulart e seus projetos. As direções, em primeiro lugar o PCB, faziam da classe operária um peso a mais na balança da correlação de forças entre as distintas frações das classes dominantes.

O PAPEL DE JANGO E O PCB NO ASCENSO DE 1964

Em meio aos levantes de trabalhadores e trabalhadoras do campo e das cidades, João Goulart assume o leme do Estado. Em um clima social explosivo Jango fica com “um pé em cada barco”, apóia-se sobre setores da classe trabalhadora, mas também das classes dominantes agrárias e industriais. Depois da renúncia de Jânio, e o “golpe da legalidade”, o PCB será uma das instituições política que vai dedicar-se integralmente a luta pela legalidade que garantiria a posse de João Goulart. Buscará ainda garantir-lhe condições mínimas para governabilidade e realização de suas reformas de base. Para o PC Jango era o paladino da revolução por etapas. Desta forma, tanto a luta pela legalidade como as reformas de base, eram entendidas pelo PCB como etapas para consolidar a revolução burguesa, a ante-sala da revolução socialista. Em razão disto, o Partido atuou permanentemente para promover a construção da imagem de Jango como o grande dirigente do proletariado. Goulart tinha o diferencial de defender abertamente reformas básicas no capitalismo brasileiro.
No entanto era um governante que oscilava entre atender ao mesmo tempo interesses dos latifundiários e industriais e parte das pautas do movimento sindical. Nunca teve a intenção de enfrentar-se até as ultimas conseqüências contra as classes dominantes no país. Por isso, mesmo sabendo que setores da burguesia e dos militares articulavam um golpe, negava-se a fornecer armamentos para que as Ligas Camponesas e os sindicatos pudessem defender-se dos ataques das classes dominantes. Mas o PCB acreditava que era possível realizar reformas estruturais por meio de um governo burguês reformista, imaginado que a burguesia retrograda brasileira respeitaria o jogo democrático. Como Jango tinha grande base de apoio, o PCB esperava que João Goulart articulasse e dirigisse a resistência ao golpe que era construído, impedindo assim que as frações mais atrasadas e reacionárias derrubassem o governo. No entanto o PCB, ao apostar todas as fichas em Jango, mantinha-se eqüidistante da estratégia marxista revolucionária. Abria mão da única forma de resistência ao golpe que era a auto-organização do proletariado com um programa independente das classes dominantes.
Durante todo o processo de ascenso das classes trabalhadoras no Brasil, o PCB agiu como importante educador coletivo. Seguindo a estratégia de revolução por etapas, definida por Stalin durante o final da década de 1920, o partido buscava organizar o proletariado rural e urbano para fortalecer setores da burguesia que deveriam protagonizar a primeira fase da revolução no país. Insiste em educar o proletariado para seguir os ânimos de direções reformistas e pequeno-burguesas.

O PCB E SUA FÉ CEGA EM SETORES DA BURGUESIA

Buscando alcançar tais objetivos o partido se articula na Frente de Mobilização Popular (FMP), agregando-se aos grupos orientados pelas posições nacionalistas de esquerda, reunindo a UNE. Em agosto de 1962, o PCB funda em São Paulo o Comando Geral dos Trabalhadores Brasileiros – CGT. Na luta por desenvolver o capitalismo nacional, articula ainda a Frente Parlamentar Nacionalista (FPN). O PCB busca consolidar apoio às frações da burguesia e ao governo. Luiz Carlos Prestes, dirigente de grande importância do PCB, maior líder popular do país depois de Vargas, apelava as dezenas de milhares de trabalhadores e camponeses a “evitar agitações”, “passar fome se for preciso”.  (Confira: BIANCHI, 2001[2]).
Os sindicatos, federações e demais organizações, sob direção do PCB são colocado a serviço da sua estratégia de apoio a frações da burguesia. Assim o partido acaba por colocar estas instituições a serviço de determinados governantes (como fez em relação ao governo de Vargas, Dutra, Marechal Lott, J. Kubistchek, J. Goulart, Magalhães Pinto, Tancredo Neves, Lula e Dilma). Com isso as instituições da classe trabalhadora, sob direção do PCB, acabam funcionando como ala esquerda da manutenção do Estado burguês. Foi sempre buscando conciliar os interesses de frações da burguesia que o PCB impulsionou o MUT, Movimento Unificado dos Trabalhadores, a Confederação dos Trabalhadores do Brasil (CTB), depois o Pacto da Unidade Intersindical (PUI) em São Paulo, e o Pacto de Unidade e Ação (PUA). Frente de Mobilização Popular (FMP), o Comando geral dos Trabalhadores Brasileiros – CGT , a Frente Parlamentar Nacionalista (FPN), e posteriormente na CUT.
Tratava-se, no entanto, de buscar desenvolver e aprofundar os acordos programáticos entre os militares insurrectos e o proletariado do campo. Porém, a direção política mais influente no exército também era o PCB que era contrário a qualquer radicalização das lutas sociais, queria que tanto os camponeses como os militares seguissem as alas janguistas e as frações da “burguesia democrática”. Amplos setores em luta deveriam ser contidos para seguir as determinações da base de João Goulart, e foi neste sentido que trabalhou CGT-PCB. A atuação do PCB em busca de solidificar uma aliança do proletariado com setores da burguesia, construindo mecanismos políticos e sindicais para que a burguesia nacional dirigisse a classe trabalhadora, impediu que o proletariado desenvolvesse um programa e uma atuação política independente das frações da burguesia que pudesse desarticular as classes dominantes. O Partido garantiu que o movimento operário, articulado por meio do CGT-PCB, vivesse os processos organizativos quase que isolado da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil (AMFNB) e das Ligas Camponesas.
A determinação de seguir os setores janguistas e sua “burguesa nacional” impediu que se desenvolvesse um trabalho intenso para a unificação das principais lutas proletárias que se desenvolviam. Sem isso, não se constituiu uma sólida base programática pautada na independia de classe que pudesse ser assimilada amplamente pela classe trabalhadora. Assim, dificultava-se sobremaneira a possibilidade da unidade do proletariado em uma plataforma política própria que refletisse suas principais necessidades históricas.
E novamente, depois de constatada a ofensiva operária por meio de uma série de greves, o Estado, a burguesia e o patronato reagem, e reagem duramente em defesa dos seus lucros, da dominação de classes e da estabilidade do sistema capitalista brasileiro. Assim, o golpe militar-burguês que figurava como risco eminente concretizou-se, mas Jango optou pelo não resistir, e a partir do golpe de 1964 o processo de desenvolvimento da organização do movimento sindical e proletário foi interrompido, abre-se uma intensa onda governamental repressiva.
Além da FIESP, muitas outras organizações apoiavam o golpe militar-burguês, como no caso do movimento “Marcha da Família com Deus Pela Liberdade”, que reuniu cerca de 500 mil pessoas em São Paulo no dia 19 de março de 1964. O objetivo central desta marcha era demonstrar repúdio às reformas de base propostas elo governo João Goulart e exigir controle sobre as mobilizações e jornadas de greves, piquetes, paralisações e enfrentamentos que eram desencadeados continuamente.
Ou seja, o golpe foi uma forma radical de manter a ordem de classe, dissolvendo sindicatos, partidos políticos e demais organizações proletárias que pressionavam as classes dominantes e seu governo em busca de transformações estruturais. Desta forma podemos dizer que a ditadura militar era também uma ditadura burguesa, tínhamos na verdade um Estado burguês em módulo de guerra contra o proletariado e suas instituições (partidos, sindicatos e correntes políticas). O golpe teve um destinatário certo: o proletariado brasileiro. A burguesia entendia que era preciso frear o avanço organizativo-contestatório dos trabalhadores. Para conter o ascenso proletário advindo do campo e das cidades a burguesia adentra uma nova fase da dominação de classe pelas armas, o Estado burguês assume o módulo de guerra. Havia ainda relações de troca de favores entre o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e as empresas montadoras de veículos do ABC, que forneciam veículos ao departamento em troca de sua atuação na região do ABC para coibir e dispersar ações grevistas. (Lisboa, 2009[3] ).
O golpe militar-burguês visava fazer refluir o período pré-revolucionário que se abria no País desde o inicio da década de 1960. Em síntese, no caso do Brasil, os principais elementos constitutivos deste período pré-revolucionário seriam: a) a crise econômica, com explosão inflacionária e déficits na balança de pagamentos. b) organização e radicalização do campesinato, com a insígnia“reforma agrária na Lei ou na marra”. c) organização, radicalização dos trabalhadores, em greves políticas contra as políticas governamentais, bem como contra os “arrochos”, expressa pela deflagração de greves massivas no período d) insubordinação, organização e radicalização nas Forças Armadas, com tendência a unificação de operários e camponeses.
Sobretudo nestas circunstâncias, caberia a um partido marxista revolucionário ajudar desenvolver a organização da classe trabalhadora por meio de reivindicações transitórias e medidas de auto-defesa. Para se assegurar trabalho e existência digna para toda população era necessário exigir um amplo plano de obras públicas de longa duração para criar empregos e distribuir moradias, lutar pela escala móvel de salários e escala móvel das horas de trabalho,redução da jornada de trabalho sem redução salarial, como forma de combater o desemprego, e ainda com aumento automático dos salários em relação aos preços, divisão das terras, estatização das empresas privatizadas e dos bancos, sobre controle dos trabalhadores etc. Em meio à intensa luta de classes que estava em processo era necessário, além de retomar os sindicatos das direções pelegas, organizar comitês de greve independentes, tratava-se de desenvolver a dualidade de poder por meio de comissões de fábrica e por, enfim, os conselhos operários (sovietes). Nos campos era necessário criar os comitês de pequenos lavradores.
Ainda, Trotsky no Programa de Transição alerta que as crises políticas e sociais tendem a exasperar ao máximo o ritmo da luta de classes. Desta forma não deve esperar que a situação revolucionária apareça de uma só vez. Na realidade, sua aproximação é marcada por toda uma série de convulsões. A onda de greves com ocupação de fábricas é, precisamente, uma delas. O aprofundamento da luta do proletariado provoca a exacerbação dos métodos de contra-ataque por parte das classes dominantes, do patronato, setores da pequena burguesia e das classes médias. O ascenso da luta de classes provocam reações enérgicas por parte da burguesia. Para conter a classe trabalhadora, movimentos sociais e demais setores em luta, a burguesia não se limita em utilizar apenas a polícia e o exército oficiais, lança mão corriqueiramente de exércitos privados, sustenta destacamentos militarizados e bandos armados para sufocar as manifestações do proletariado rural e urbano. Para resistir aos ataques dos bandos armados da burguesia os trabalhadores e trabalhadoras necessitam prevenir-se, formando sua própria auto-defesa. Em períodos como os que antecederam o golpe militar burguês de 1964, o proletariado precisa necessariamente formar praticamente os destacamentos de auto defesa em todo o lugar onde for possível. Só assim é possível defender os piquetes, as organizações dos trabalhadores rurais no campo e os bairros proletários. Sem isso não se pode ter nenhuma garantia para a inviolabilidade das organizações, reuniões e imprensa operárias.
A partir das contradições econômicas, políticas e sociais postas pelo ascenso proletário, tratava-se de constituir um programa que permitisse à disposição de luta crescente dos trabalhadores e trabalhadoras adentrar em um patamar superior de organização e atuação. Oposto á esta tarefa política, social e histórica, um partido oportunista, que sustente ilusões em frações da burguesia, tende a funcionar como principal freio no desenvolvimento da situação revolucionária. E foi justamente este papel que desempenhou o PCB, uma vez que levou o proletariado a distanciar-se sobremaneira da consolidação de um programa transitório. Evitou com isso a possibilidade do que Lênin chamava de transcrescimento da revolução democrática em revolução socialista.
Uma vez consolidado o golpe, o PCB adota a perspectiva da convivência pacifica com nova ordem social, política e econômica imposta pelo Estado burguês-militarizado. Esta opção política tem como uma de suas conseqüências a fragmentação do Partido em uma série de dissidências, que embora rompessem com o pacifismo proposto pelo partido, conservaram os elementos centrais do stalinismo e da conciliação com setores da burguesia. Estes grupos dissidentes não rompem com a estratégia stalinista de revolução em etapas, primeiramente vinha a revolução burguesa, depois a proletária. Mesmo frente à ditadura militar-burguesa, estes grupos guerrilheiros orientavam-se a partir das determinações dos congressos de 1925 e 1928 da Internacional Comunista já stalinizada, o que caracterizava-os como uma espécie de “reformismo armado”. A luta armada significava que para os guerrilheiros, frente ao golpe, para efetivar esta primeira etapa democrática era necessário “pegar em armas”. (SALLES; MATOS, 2007).
Entre as principais correntes formadas a partir da fragmentação do partido, além do racha de 1962, quando se forma o PC do B, forma-se a partir do racha pós-golpe militar: Ação Libertadora Nacional (ALN), Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR8), Ala Vermelha (AV), Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Estas frações, embora rompam com o PCB, não rompem com a estratégia da revolução por etapas, nem com a busca de realização de alianças com a burguesia nacional. Ou seja, enquanto parte da esquerda organiza-se a partir do movimento operário para construir greves, piquetes e ocupações, como forma de unificar a classe operária contra a ditadura, outros setores, oriundo de rachas do PCB e PC do B organizam grupos de guerrilha urbana, na sua maioria lutando ainda por uma revolução democrático-burguesa em etapas, na tentativa de substituir a ditadura militar-burguesa, por uma democracia burguesa, buscando organizar a burguesia progressista, que deveria ser respaudada pelo proletariado e pelos camponeses.
No entanto, mesmo com os equívocos e desvios do PCB, PC do B e demais grupos stalinistas, o movimento operário consegue se reorganizar a partir da segunda metade da década de 1960 por meio das comissões de fábrica e o movimento de Oposição Sindical Metalúrgica. O processo grevista na cidade de Contagem tornou-se rapidamente o centro irradiador do enfrentamento contra o patronato e o Estado burguês-militarizado. Quatro meses depois das mobilizações massivas do operariado em Contagem, em agosto de 1968, milhares de metalúrgicos de Osasco deflagram outra greve que começou a espalhar-se para outros setores, esta também foi considerara ilegal sendo arrasada pela Ditadura. Ainda neste ano é organizada a “marcha dos cem mil”. Colocava-se como eminente o risco das lutas contra o regime generalizarem-se pelo país. As mobilizações no Brasil desenvolvem-se em paralelo com outros levantes internacionais. Na França em 1968 decorriam ações radicalizadas de operário e estudantes, que ficou conhecida como “o maio Francês”, além da “Primavera de Praga” na Tchecoslováquia e o “outono quente” na Itália, também desencadeavam-se insurgências na Argentina e na Líbia em 1968. Frente à nova conjuntura aberta, o governo militar-burguês move seu aparato repressivo para conter as mobilizações proletárias no Brasil. Além de reprimir e prender grevistas, em dezembro de 1968 o governo decreta o Ato Institucional nº5 - AI-5. Este será base importante para a sustentação do “milagre econômico” pró-burguês e anti-operário durante o regime militar. Ainda assim, as greves de Osasco e Contagem tornaram-se dois símbolos de luta contra a ditadura em 1968, pois mesmo derrotados marcaram um real processo de ruptura do proletariado com as velhas direções e aparatos (PC, varguismo, sindicalismo oficial), apontando para a auto-organização e o classismo.

SOBRE AS GREVES DO ABC

Por motivações políticas, econômicas e sociais, constitui-se base para uma série de movimentos que pressionam o governo, tal como o Movimento Negro Unificado, Pastoral da Terra, Juventude Universitária Católica, Ação Católica Operária, Comunidades de Bairro, Clube de Mães, Movimento Estudantil, Novo Sindicalismo, O Movimento Grevista do ABC paulista, União Metalúrgica de Luta, Mulheres Operárias. Uma série de movimentos sociais articula-se também a partir da Igreja católica e das Comunidades Eclesiais de Base, por meio da Operação Periferia, estimulada pela igreja católica e levada a cabo por adeptos a Teologia da Libertação, que defendiam “luta terrena pela justiça social”. Esta ruptura das classes médias deixaram o regime no ar e abriram as brechas nas alturas que a classe operária aproveitou para retomar o caminho iniciado em 1968. O ano de 1974 marca o início de uma nova contra-ofensiva proletária.
Em meio a tais processos, os trabalhadores organizam a interfábricas. Esta foi expressão da construção autônoma pelos trabalhadores e sindicato de base. Era por meio da interfábricas que se dava a difusão de informações sobre as mobilizações proletárias. Muitos dos operários que organizavam a interfábricas haviam vivido os ascenso proletários da década de 1960. A interfábricas era composta pela Oposição Metalúrgica de São Paulo que também difundia informações acerca dos acontecimentos do ABC entre os metalúrgicos da grande São Paulo. Com essa rede de solidariedade a efervescência operária atinge importantes segmentos do proletariado da capital paulista.
A Oposição Metalúrgica buscava estreitar sua articulação com os sindicatos do ABC. Compunha-se uma aliança estratégica, pois a Oposição formada por trabalhadores e trabalhadoras de diversos setores, existia na região Sul e Leste da grande São Paulo. Com o ascenso das lutas operárias no ABC paulista, decorridas no período 1978-1980, constituíam-se elementos palpáveis para a construção de um forte movimento operário nucleado em SP. Em maio de 1978, sem consultar o sindicato do ABC dirigido por Lula, operários da Scania decidem passar por cima da Lei anti-greve desencadeiam uma greve na empresa. A partir disso, uma série de outras mobilizações, paralisações e greves serão desencadeadas no País.
Estas mobilizações marcavam a intensificação da disposição de organização e luta por parte do operariado. Em julho de 1978 foi realizado no Rio de Janeiro o V congresso da Confederação Nacional dos Trabalhadores Industriais. É a partir deste congresso que se consolida o bloco dos autênticos. Estes iriam torna-se mediadores entre a base operária radicalizada e o patronato. Também neste ano o PCB, capitulando ao projeto de autoreforma do Regime Militar, articula-se com uma das frações dos militares e da burguesia em apoio à candidatura de Magalhães Pinto que havia sido um dos articuladores do golpe em 1964. Este era apoiado pelo PCB em oposição à sucessão João Batista Figueiredo. No entanto o candidato do PCB foi derrotado.
No ano seguinte, 1979 uma nova greve massiva será preparada no ABC. Esta será mais organizada do que as greves ano anterior, envolvendo milhares de grevistas. A polícia e o exercito tomam as ruas do ABC e reprimem brutalmente os operários e operárias. Esta greve só conquistará parte de suas demandas. Mesmo com derrotas o proletariado do ABC ainda encontra disposição para desencadear uma greve maior ainda em 1980. Apenas no dia 11 de maio de 1980, grevista voltaram ao trabalho. A nota do boletim do comando de greve ainda ameaçava o patronato “atrás de cada máquina eles terão um trabalhador em guerra. Voltamos apenas para evitar a repressão da polícia do governo, face a face e desarmados”. O movimento grevista, mesmo isolado, lutando contra a vontade do governo ditatorial-burguês, do patronato, sob intensa repressão, violência policial e prisões, resistiu durante 41 dias. Desde o inicio Lula e os autênticos, buscavam uma saída negociada com a ditadura e o patronato, sobretudo porquê temiam a radicalização da luta operária.
 Para que o movimento obtivesse maior êxito em sua organização e reivindicações, era necessário que o sindicato do ABC se articulasse às dezenas e comissões de fábrica que já existiam, fomentando ainda a organização de novas comissões nos locais de trabalho. Com isso seria possível dotar o movimento grevista de maior coesão e organicidade. O sindicato deveria ser dirigido por estas comissões. Porém, os autênticos combatiam a formação de comissões de fábrica, o que pode ser verificado nos boletins do sindicato no período. Os autênticos alegavam as comissões dividiam a categoria. O próprio Lula concede entrevista em 1978 afirmando que não apenas foi contrário à “criação de comissões”, como ainda “(...) e em algumas empresas em que elas surgiram nós procuramos acabar com elas. E por que? Porque o problema era de todos e não era de meia dúzia”.
Em resumo, três os mecanismos centrais que permitiram aos autênticos controlar o ascenso dos operários e operárias do ABC: 1) combate as comissões de fábrica, 2) monopólio da representação nas negociações, e por fim a 3) exclusividade do direito de expressar propostas nos fóruns de deliberação coletiva, nas assembléias plebiscitárias apenas a direção do sindicato é que tinha direito a fala. Somados estes monopólios, tinha-se uma blindagem que garantia grande vantagem aos autênticos em relação a outras direções alternativas. A direção do sindicato do ABC não aceitava que a articulação com as propostas oriundas das diversas comissões de fábrica era uma forma de expandir a greve para além dos interesses imediatos da gestão do sindicato. Embora Lula e a diretoria do sindicato do ABC não falassem contra a greve, desde o inicio preparavam seu fim. As greves deveriam limitar-se a funcionar como um instrumento para pressionar o patronato a sentar-se à mesa de negociações. Estas direções nem sequer cogitavam a hipótese de unificação das greves para lutar efetivamente pela derrubada da ditadura militar-burguesa. Lula inclusive se dizia contra uma greve geral alegando que as reivindicações dos metalúrgicos do ABC eram diferentes das dos metalúrgicos do interior e de outras categorias. Ao invés de isolar e sufocar as comissões era necessário assegurar que em cada local de trabalho se votassem delegados revogáveis para constituir um fórum de frente única, democrático, que servisse como centro organizador das lutas que se abriam.
Se os autênticos, dirigidos por Lula não eram alternativa para organização da derrubada da ditadura, as frações stalinistas também não o eram. Os partidos stalinistas, ao invés de se aliarem com o proletariado em ascenso preferiram manter-se nas fileira dos setores “mais democráticos” do movimento sindical, como forma de enfraquecer a ala representada pelos “autênticos”. Com isso, as organizações stalinistas acabaram por organizar-se com o setor dos “pelegos”. Esta fração reformista era a mais expressiva preocupada em não afrontar o regime.

MOVIMENTO OPERÁRIO DURANTE A DÉCADA DE 1980

Durante toda a década de 1980 o país vivenciará um novo período de crise econômica, conhecido como crise da divida externa. A inflação crescente corroerá os salários, e será o motivo principal das quatro greves gerais que serão desencadeadas durante a década de 1980 (1983, 1986, 1987 e 1989). Desta forma, a crise política aberta pelo protagonismo do proletariado do ABC somou-se à crise econômica (Confira: A classe operária na luta contra a ditadura[4] e Movimento operário no ABC e na Volkswagen (1978-2010)http://www.marilia.unesp.br/Home/Pos-Graduacao/CienciasSociais/Dissertacoes/moura_a_me_mar.pdf ). Decorrem-se então uma série de mobilizações, greves e ocupações desencadeadas a partir dos diversos locais de trabalho. Ente exemplos mais importantes estão; a greve dos operários da Ford em 1981, a greve geral de 1983, a segunda greve geral em 1986, a ocupação com enfrentamento armado com o exército na Companhia Siderúrgica Nacional em 1988, onde os trabalhadores resistiram à repressão durante 17 dias. Esta greve com ocupação foi seguida ainda pelas greves com ocupações da Belco-Mineira e da Mannesmann em 1989. Também em 1989 é desencadeada a terceira greve geral da década de 1980. Além da multiplicação de confrontos radicalizados, a classe trabalhadora brasileira construiu também organizações de massa, como o PT (fundado em 1980), a CONCLAT (1981), a CUT (1983), o MST e a CGT (1986).
Nesse contexto, o PCB mantém sua posição estratégica stalinista de subordinar a classe trabalhadora ao programa da dita ''burguesia progressista'' que defendia na década de 1980, a partir do MDB, que a saída da ditadura se daria de maneira pactuada com os setores do regime. Esta política se manifesta no apoio ao articulador do Golpe de 64 Tancredo Neves, nas eleições no colégio eleitoral em 1985, política que se contrapõe frontalmente a perspectiva revolucionária da derrubada violenta do poder de Estado burguês pela classe trabalhadora em aliança com os setores pobres do campo e da cidade, que no período se encontrava extremamente radicalizada em seus métodos. Em outras palavras, o PCB assim como em 64 com o apoio a Jango, alimenta no seio da classe trabalhadora esperanças frente aos setores da ‘’burguesia nacional’’ representados pelo MDB desviando desta maneira o processo de ação direta nas ruas com a utilização dos métodos de luta revolucionários de classe (greve, piquete e ocupação) para uma via pacifista parlamentar.
Desta forma, o PCB[5] optou por apoiar o colégio eleitoral dirigido pelos militares a as classes dominantes, ao invés de construir a Diretas Já. Adotou para isso a palavra de ordem “lutar para negociar, negociar para mudar”. Tal política foi levada a cabo pela CGT, dirigida pelo PCB, PC do B e PMDB durante a década de 1980. Em 1988 a CGT racha, e um setor do partido, dirigido por Luís Antonio Medeiros, membro do Comitê Central do PCB, funda a Força Sindical. Com todos estes equívocos políticos, o PCB busca entrar na CUT, mas o faz já no período em que a CUT começa a fazer mais giros à direita. Esta passava a defender o sindicalismo propositivo. O PCB, PC do B, MR8 e PT acabaram por ser avalistas da transição pactuada, que permitiu que os militares transferissem o poder para a burguesia sem se apurar os crimes cometidos durante a ditadura militar-burguesa. A saída pactuada igualava torturadores e torturados, mortos e assassinos. E ainda sustentava o acordo de enclausuramento dos arquivos da ditadura. Os partidos stalinistas ainda não fizeram um balanço profundo do reformismo em sua atuação teórica e prática. Exemplo disso é seu apoio a governo burgueses e nacionalistas que reprimem o movimento operário, movimentos sociais e demais lutadores. O PCB ainda hoje reivindica Kadafi, Fidel e Raul Castro, Evo Morales, Hugo Chavez, governos repressores e aliados a setores da burguesia. (Confira: http://www.ler-qi.org/spip.php?article2648).
É necessário romper com qualquer tentativa de conciliação proposta por tais partidos, retomar as discussões sobre o caráter da ditadura militar burguesa e exigir a punição de todos os culpados. No Brasil, não haverá apuração nem punição com uma comissão moldada e controlada pelos militares, políticos, juízes e empresários ou representantes destes criminosos; não haverá apuração nem punição sem a abertura incondicional dos arquivos, sem investigação independente do governo. É necessário exigir o fim da impunidade e conclamamos as organizações de direitos humanos, de ex-presos e familiares de desaparecidos, organizando-se com sindicatos, partidos e centrais sindicais que se reivindicam classistas, de esquerda e democráticos para apurar, julgar e punir os criminosos, mandantes e apoiadores militares e civis, não permitindo que mais uma vez o pacto de governabilidade-impunidade se imponha contra a memória, verdade, justiça e castigo[6].
A militarização de setores da sociedade brasileira permaneceu como claros ecos dos resquícios da ditadura militar ocorrida no Brasil, que não foi apurada, deixando de punir seus culpados. Basta recordarmos dos fuzilamentos de trabalhadores na CSN (1988). Massacre do Carandiru (1992). Candelária (1993). Vigário Geral (1993). Repressão aos petroleiros (1995). Massacre de Corumbiara (1995). Eldorado do Carajás (1996). Massacre no Morro do Alemão (2007). (confira: http://marecrescente.blogspot.com/2011/11/10-chacinas-e-massacres-policiais-no.html)
Em outro nível tivemos a invasão da UNESP Araraquara pela tropa de choque em 2007 reafirma os resquícios da ditadura militar-burguesa, que trata as mobilizações sociais como crime político. No mesmo ano a Policia tentou acabar com a ocupação da USP, mas foi impedida pela auto-organização de estudantes e trabalhadores do SINTUSP. Em 2009, em meio a uma greve a polícia invadiu a USP, utilizando-se de bombas de gás, balas de borracha e cassetete prendeu e espancou estudantes e trabalhadores. Ainda no dia 8/11/2011, mais de 400 policiais da Tropa de Choque invadem a USP e prendem 73 estudantes. Milhares de estudantes e trabalhadores vão às ruas para protestar contra a presença da PM na USP (confira o vídeo:http://www.youtube.com/watch?v=qV5yRShuRHE). Assistimos ainda a militarização constante de morros e favelas, expressa pela política de Estado em manter as UPPs (Unidade de policia pacificadora). Sem as armas não é possível manter o proletariado superexplorado sobre controle.
Não esquecemos a ditadura, assassinatos, chacinas, massacres e torturas. O aparato policial é parte imprescindível da dominação burguesa. É utilizado pelo patronato do campo e das cidades, pelos latifundiários, pela burguesia industrial e financeira para reprimir e assassinar brutalmente os trabalhadores e trabalhadoras. É parte elementar dos mecanismos de manutenção da subalternização dos despossuidos de meios de produção. Constituí parte fundamental da manutenção do latifúndio e da superexploração do trabalho. Devemos nos posicionar contra todos os resquícios ditatoriais, contra qualquer forma de repressão as atividades políticas e organizativas da classe trabalhadora urbana e rural, da população pobre, d@s estudantes secundaristas e universitários.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

ATRIBUIÇÃO DE AULAS, O RECOMEÇO DE UMA JORNADA DE PRECARIZAÇÕES


Alessandro de Moura

Primeira atribuição do ano. E lá vamos nós outra vez. Estamos todas e todos lá, jovens que acabaram de adentrar à profissão (hoje já são maioria na categoria), mas também professoras e professores com dezenas de anos no magistério, lecionaram para gerações.  Encontraremos antigos colegas de trabalho e iniciantes na profissão. Iniciam-se novas amizades com profs e estudantes. E como nem tudo são flores, sabemos que inimizades também acontecerão, sobretudo com alguns tipos de coordenadores e diretores (sobretudo os governistas e carrascos que fazem de tudo para arrancar nossa pele).
Encontramos professoras e professores que são também militantes sindicais, educadores coletivos que são combatentes políticos.  Mas também encontramos profs que preferem não se envolver com lutas sociais, uns por indiferença e outros por ceticismo. Uns são solidários  sempre dispostos a ajudar, outros preferem nos acotovelar, pensando apenas em suas próprias contasTodas/os torcendo para conseguir pegar o numero suficiente de aulas. Torcendo ainda para conseguir pegar todas as aulas em uma mesma escola, ou pelo menos, se tiver que pegar em mais de uma escola, que sejam próximas um da outra. Pois afinal, além da paixão por lecionar, precisamos pagar as contas e cumprir os horários.
No entanto, mesmo conseguindo pegar a s aulas perfeitas, na escola perfeita, ainda fica um sentimento desconfortável. Pois sabemos que se pegamos aulas em uma boa escola, em um lugar que não seja de difícil acesso, que não precisaremos perder horas no transporte... Por outro lado, alguém as pegou... Muitas professoras e professores não conseguiram sequer completar sua carga horária... seus salários serão ainda menores...
A maioria esmagadora de nossas colegas professoras e professores vão trabalhar em escolas com infra-estrutura super precarizadas... onde falta de tudo... com salas de aula super lotadas, pais e estudantes insatisfeitos (com toda razão). Além disso, teremos dezenas de HTPCs, aulas para preparar, provas para corrigir... Ainda, além de ensinar conteúdos de nossas matérias, ajudaremos nossos colegas, estudantes e professores em sua angustias diárias...
Como se não bastasse, o governador Geraldo Alckmin ainda impõem a “duzentena” à nossa categoria. Determina que fiquemos 200 dias letivos sem poder dar aula. Com o grande numero de formados, e o pequeno numero de escolas menos precarizadas, o governador impõe uma espécie de revezamento para as melhores vagas... com isso tenta impor também que nos “joguemos uns contra ao outros”, criando divisões na categoria. Mas como pode impor esse revezamento frente à falta crônica de profissionais? Como pode deixar um verdadeiro batalhão de professores impedidos de dar aula enquanto centenas de escolas ficam o ano todo sem professores? Na prática, isso obriga milhares de professores a trabalharem como “eventuais” tendo suas condições de trabalho e salários ainda mais precarizadas.
Socialmente, nossa profissão, assim como muitas outras, esta longe de ser valorizada tal como merece. Os salários e regime de trabalho expressam isso. Bem diferente, eqüidistante, das condições e salários de um deputado. Segundo dados do Inesp (http://www.inesc.org.br/noticias/noticias-gerais/2008/abril/cada-deputado-federal-custa-r-1-4-milhao-por-ano/), em 2008, quando cada deputado recebia 16.500 reais por mês, somados seus benefícios, cada deputado custava UM Milhão e meio ao ano aos cofres públicos. Agora seus salários são de 27.000 reais ao mês. Segundo dados do DIAP (http://www.diap.org.br/index.php/legislativo/custo-do-deputado-ou-senador), a União gasta por ano R$ 6,6 milhões para cada um dos 513 deputados federais. Soma-se a isso o que gastamos com os salários, benefícios e encargos gerados pelos 81 senadores. Segundo o DIAP são mais R$ 33,4 milhões para cada um dos 81 senadores. Veja o brevíssimo video: http://www.youtube.com/watch?v=W88n0qpRCww&feature=related.
Segundo dados da CUT (central sindical governista), no Ceará, por 40 h. semanais, professores e professoras recebem 1.320, no Rio Grande do Sul 1269, na Paraíba 1243, no Rio Grande do Norte 1157, em Goiás 1084, e em Pernambuco as professoras e professores recebem 1016 por 40h. semanais. (http://www.slideshare.net/pierrelucena/pesquisa-salarial-professores-das-redes-estaduais).
Principalmente a partir da década de 1980, período de grande altas inflacionárias, os salários dos professores foi muito desvalorizado, as quedas no salário real foram aprofundando-se ano a ano. Hoje, a hora trabalho/hora aula dos professores é muito menor do que a taxa salarial de outros profissionais com mesmo nível de estudo.
No Estado de São Paulo temos uma grande variedade de formas contratos que possibilitam ao governo do Estado pagar baixos salários, e terceiriza mão de obra. Hoje apenas 50% da categoria tem emprego efetivo, e o restante da categoria vive de contratos temporários precarizados. Como a categoria Ó que tem contrato de um ano para cobrir licenças, ou os eventuais que recebem cerca de 7 reais por aula.
Mesmo com as greves que vem sendo realizadas, o Estado tem conseguindo manter a educação em precárias condições estruturais, mantém as salas de aulas superlotadas, falta de materiais didático-pedagógicos, baixos salários e ainda desconta dias parados em caso de greve, punindo os que ousam lutar por condições melhores de ensino, ferindo inclusive o direito de greve conquistado durante a década de 1980. As condições precárias de ensino causam estresse em estudantes, professores e funcionários, constrói-se um quadro caótico nas instituições escolares brasileiras.
Outro agravante nesta situação é que as manobras do Estado são pactuadas com a burocracia sindical que dirige o sindicato dos professores APOESP. Sua direção majoritária sobrevive à custa de pactos e negociatas com as bancadas parlamentares, políticos que servem a patronal e a burguesia, que por sua vez serve ao cartel das escolas e instituições particulares. Frente a tal quadro, os trabalhadores e trabalhadoras da educação vem sofrendo derrotas consecutivas. A burocracia sindical, recebendo contrapartidas, alimenta a descredibilidade das mobilizações da categoria, fazendo com que o professorado deixe de acreditar em suas próprias forças. Certamente não estaríamos nessas condições se tivéssemos sindicatos que lutassem por nossas pautas históricas e imediatas.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

FÁBIO SANTOS DA SILVA, REGINA DOS SANTOS PINHO E CÍCERO GUEDES DOS SANTOS, TRABALHADORES RURAIS ASSASSINADOS A SERVIÇO DO AGRONEGÓCIO


Alessandro de Moura,
Doutorando em Ciências Sociais pela UNESP-Marília

No dia 2 de abril de 2013, foi executado  o trabalhador rural Fábio Santos da Silva, com 15 tiros por pistoleiros, em Iguaí, região sudoeste da Bahia. No dia 25/01/2013, Cícero Guedes dos Santos, trabalhador rural negro, liderança do MST no assentamento Zumbi dos Palmares, localizado no Rio de Janeiro (Campos de Goytacazes) foi executado com dez tiros dentro da Usina Cambahyba.  Em seguida, também no mesmo assentamento, foi assassinada Regina dos Santos Pinho. As lideranças reconhecidas são as principais vitimas dos pistoleiros que, pela manutenção da imensa concentração latifundiária, assassina corriqueiramente os trabalhadores e trabalhadoras do campo que lutam pela reforma agrária no Brasil. Esses três combatentes que tombaram na batalha pela transformação da estrutura fundiária, abatidos brutalmente em combate, devem ser lembrados como sujeitos históricos que se lançaram em uma luta centenária contra a estrutura fundiária e a precariedade das condições de vida dos trabalhadores rurais no país. São corriqueiramente assassinados às centenas, mas persistem, insistem e lançam suas vidas, seus corpos contra um inimigo nacional: O latifúndio, este é defendido por sucessivos governos, militarmente,  principalmente pela via para-militar, em guerrilhas contra os que gritam que “a terra e de quem trabalha nela”. Com mais estes assassinatos, os latifundiários brasileiros e o agronegócio, protegidos pelo Estado brasileiro e suas instituições corruptas de tradição escravocrata, reafirmam a defesa de suas posições centenárias de dominação e massacre dos trabalhadores e trabalhadoras do campo.
O Brasil é um dos países com maior índices concentração de terras no globo. Desde que o império português escravocrata instalou-se no Brasil, determinou-se pela concentração de terras nas mãos de pequenos grupos que vieram a constituir uma elite nacional. Elite essa que se converteria em burguesia. Os grupos originários do Brasil, constituído milhares de tribos indígenas, foram os primeiros grupos que ficaram impedidos pela coroa portuguesa do livre usufruto das terras onde viviam a gerações. Como sabemos, imensos contingentes da população indígena foram massacrados pelos latifundiários e escravocratas com apoio da Igreja e da Monarquia. Ainda hoje, a burguesia agrária, descendente dos primeiros invasões, empreendem ataques cotidianos contra os indígenas, invadindo ainda hoje seus restritos territórios.
Com os sequestros e deportações da população negra africana para o Brasil, promovidos pela coroa portuguesa e seus consortes, o problema da concentração de terras é reafirmado. A população negra rebela-se contra a escravidão, empreende fugas em massa e criam os quilombos. Cabe aqui destaque ao Quilombo dos Palmares. Esse significou a fusão de duas lutas: a luta pela terra e a luta contra a escravidão. Este quilombo resistiu por mais de 100 anos aos ataques da coroa, nobreza, capitães do mato e toda ordem de repressores. Palmares tornou-se rapidamente uma espécie de “Estado paralelo” que debilitava toda estrutura escravocrata colocando a monarquia em risco. Sua permanência  colocava em xeque todo o Regime Monárquico, pois uma vez que se derrubasse a escravidão, a monarquia ruiria também.  Desta forma Palmares colocava em risco econômico e político a empresa colonial escravocrata e a própria monarquia que era estruturalmente dependente da escravidão.
A lei de terras de 1850 buscava garantir que os índios e a população negra africana (sequestrada no continente africano e mantida prisioneira no Brasil), fosse impedida de estabelecer-se autonomamente nas terras brasileiras. Nada disso cessou a luta pela terra. Depois de Palmares muitos outros quilombos continuaram resistindo. Canudos foi outra experiência valiosíssima de auto-organização e luta pela terra, Antonio Conselheiro consegui organizar dezenas de milhares de trabalhadores sem terra descendentes de ex-escravos e indígenas . Canudos também foi duramente reprimido e massacrado. Isso porque o Estado, latifundiários e fazendeiros escravocratas eram sócios inseparáveis.
 Todo aparato estatal atuou conscientemente contra a população indígena e negra. Assim, a própria burguesia brasileira já nasce com suas mãos cheias de sangue. Essa burguesia nasce do campo, da empresa colonial, do trafico negreiro, e logo dos massacres contra a população indígena, negra e trabalhadores do campo. A acumulação primitiva de capital por essa burguesia colonial só foi possível por conta dos imensos lucros acumulados com o roubo de terras, trabalho escravo nos canaviais, nos cafezais, nas minas, etc. O trafico de pessoas (trafico negreiro), trabalho escravo e repressão sanguinária contra toda a população que lutava pelo uso das terras marca a origem das classes dominantes no Brasil. 
Esse banho de sangue não impediu que os trabalhadores e trabalhadoras sem terra, proletários do campo (formado por negros, negras, índios e mestiços) continuassem se organizando e batalhassem na Guerra dos Contestados, na Revolta da chibata, Revolta da  vacina, nas greves de 1917, 1921, na Coluna Prestes, nos levantes de 1935 e depois constituíssem as Ligas Camponesas.A ditadura Vargas empreendeu grandes esforços para massacrar os militantes do campo e da cidades. Também a ditadura militar-burguesa de 1964 buscou acabar com as lutas no campo e nas cidades massacrando os lutadores e lutadoras do campo em conjunto com suas lideranças.
 Desde o assassinato do trabalhador agrícola Wilson Pinheiro em 1980, seguram-se dezenas de outros assassinatos no campo, como o de Marçal de Souza em 1983, Irmã Adelaide e Ezequiel Ramim em 1985. Padres Josimo Morais Tavares em 1986, Roseli Celeste Nunes da Silva e Vicente Cañas em 1987, Chico Mendes 1988. Missionária Dorothy Stang em 2005. É em meio aos processos de lutas dos trabalhadores e trabalhadoras do campo durante a década de 1980 que se organiza o Movimento dos Trabalhadores sem Terra. Mesmo que setores da direção do MST tenham aderido ao governismo, apostando na disputa parlamentar, os trabalhadores e trabalhadoras sem terra continuam lutando e sendo assassinados no campo. Não podemos esquecer desse fato imprescindível!
O aparato policial, as Milícias Privadas no Campo e pistoleiros de aluguel são os principais sustentáculos da repressão à luta dos trabalhadores e trabalhadoras rurais sem terras. Foi o aparato policial que protagonizou o Massacre de Corumbiara (1995) e também o massacre em Eldorado do Carajás (1996), ocasiões em que dezenas de militantes do MST foram fuzilados pela Policia Militar. Resquícios mórbidos da ditadura mantido pela transição negociada.  As milícias privadas promovem verdadeiros focos de guerra civil no campo contra trabalhadores e trabalhadoras sem terra. Basta recordarmos do Massacre de Camarazal em 1997. 
Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) revelam que desde 1985 até inicio de 2011 ocorreram 1.580 assassinatos de sem-terra realizados pelos latifundiários devido a conflitos fundiários. Somando-se as dezenas de assassinatos de lideranças do MST durante a década de 1980, 1990 e 2000, tivemos o assassinato do sem terra Sétimo Graibaldi em 1998, de Eduardo Anghinoni em 1999 e Sebastião da Maia em 2000. Segundo a Comissão Pastoral da Terra, apenas em 2004 houveram 1.801 conflitos entre latifundiários e trabalhadores, envolvendo 1.083.232 pessoas. Apenas neste ano, em defesa dos latifúndios, 39 pessoas foram assassinadas.
Durante os dois mandatos do governo Lula houve considerável favorecimento para valorização das commodities, da produção agrícola em monocultura e dos latifúndios. Ao mesmo tempo em que se fortalece-se o agronegócio, gerido pelos grande proprietários de terra e empresários do campo, mantém-se os assassinatos de trabalhadores e trabalhadoras sem terra e militantes. Foi durante o governo Lula, em 2007, que assassinaram Valmir Mota de Oliveira. Em 2009 em São Gabriel, Rio Grande do Sul, na Fazenda Southall, um complexo latifundiário totalizando 14.000 hectares, 230 Policiais avançam contra cerca de 270 colonos ocupantes, a metade deles mulheres e crianças. Nesta ocasião disparam nas costas do agricultor Eltom Brum da Silva com uma escopeta calibre 12. Em 2010 Milícias assassinam o trabalhador rural, Gabriel Vicente de Souza Filho, de 46 anos no acampamento Bom Jesus, na fazenda Recreio, na cidade de Palmeirante.
Também durante o Governo Dilma continuam os assassinatos e ameaças contra os trabalhadores no campo. Em 2011 também presenciamos dezenas de assassinatos de trabalhadores e trabalhadoras sem terra. As Milícias Privadas articularam o assassinato de Marcos Gomes, do trabalhador rural sem-terra Obede Loyola Souza, bem como o assassinato do casal de extrativistas José Cláudio e Maria do Espírito Santo. Os latifundiários, que recebem grandes montantes de financiamento do Governo Federal, também financiaram Milícias Privadas para assassinar o sem-terra Francisco Soares de Oliveira, Adelino Ramos, e em 6 de setembro de 2011, o dirigente sem terra Leonardo de Jesus Leite. Ainda, no dia 25 de agosto de 2011, assassinaram o dirigente sem terra Valdemar Oliveira Barbosa. Apenas cinco dias depois, em 30 de agosto de 2011, em Americana (sitio Boa Vista), mais de 600 famílias foram reprimidas pela ação de reintegração de posse da Polícia Militar. Com mais de 2000 policiais, o Estado burguês, mais uma vez, cumpriu seu papel nefasto de defender os usineiros (no caso, da Usina Escher, de monocultura de cana-de-açúcar) derrubando as casas da ocupação com tratores, numa repressão duríssima contra os ocupantes.
Estas centenas de processos repressivos, prisões e assassinatos são elementos constituintes do expressivo ataque que os setores burgueses no campo e das cidades, junto aos latifundiários, empreendem contra as ocupações, visando manter a escandalosa estrutura de concentração de terras, impondo privação e fome à milhares famílias, e impondo ainda a hiper-exploração da força de trabalho no campo, e sustentando elementos de semi-escravidão. Perseguem e assassinam brutalmente as lideranças combativas e lutadores no campo. Agrava o quadro o fato de que os assassinatos e ameaças contra os trabalhadores e trabalhadoras sem-terra não ganham evidência, ou simplesmente não são noticiadas pelos grandes meios de comunicação que compõem a mídia burguesa.
Nesse país dominado por latifundiários, com imensa concentração de terra, os trabalhadores e trabalhadoras sem terra têm enfrentado sistematicamente perseguições, prisões e assassinatos. Esses ataques são protagonizados pelo Estado, que ordena e organiza a repressão aos sem-terra, que em muitos casos termina com assassinatos de trabalhadores e trabalhadoras pelo aparato repressivo estatal. A essas ações repressivas violentas do Estado burguês, somam-se as protagonizadas pelas milicias particulares e de pistoleiros contratados por fazendeiros, burgueses agrícolas e setores do agro-negócio. 
Além disso, na composição dos poderes do Estado existe a Banca Ruralista, que em acordo com setores da burguesia industrial e financeira, defende os interesses da burguesia do campo e impedem que avancem as medidas para reforma agrária e desapropriações. Os latifundiários, empresários capitalistas no campo, patronato rural, grandes proprietários e grileiros, são os que financiam os jagunços pau mandados para pegar em armas contra os sem-terra e demais trabalhadores do campo que se mobilizam. Soma-se às perseguições aos trabalhadores e trabalhadoras as campanhas feitas pela mídia burguesa, que busca a cada episódio criminalizar as ações dos trabalhadores sem-terra construindo todo o cenário intervenções militares e desocupações.
Entra governo e sai governo e a concentração de terras é mantida praticamente intacta. Os governos feitos pelo PT também pactuaram com setores do agronegócio, latifundiários e do patronato agrícola contra os trabalhadores e trabalhadoras sem terra. Os governos burgueses, que buscam atender interesses da burguesia do campo e das cidades, do patronato agrícola e industrial, não podem realizar a reforma agrária. Ao invés disso, combatem duramente qualquer incursão feita pelos sem terras, quilombolas e trabalhadores  rurais contra a arcaica estrutura fundiária brasileira. 
Então é necessário que os trabalhadores e trabalhadoras sem-terra, o proletariado agrícola, assalariados do campo, confiem apenas em suas forças e na sua capacidade de mobilização e organização. É urgente a construção de uma forte campanha contra a repressão policial e pela extinção das milícias particulares, exigindo a punição dos latifundiários e usineiros levantando o programa de expropriação destas terras, que são exploradas para produzir imensos lucros para os latifundiários e para o imperialismo.
É necessário lutarmos pela expropriação das terras "na marra" e reorganizar a luta contra o latifúndio no Brasil em um novo marco, construindo uma sólida aliança entre os trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade. Nas cidades as organizações sindicais e partidos antigovernistas têm que assumir a dianteira na luta pela unidade com os trabalhadores e trabalhadoras do campo. Além impulsionar um programa de luta contra a as perseguições e assassinatos no campo, é necessário lutarmos pelo fim do trabalho precário no campo e nas cidades, com salários e direitos iguais para trabalhos iguais e um salário mínimo equivalente ao do Dieese.
Ainda, em conjunto com as organizações de trabalhadores rurais, os sindicatos da esquerda anti-governista devem defender uma ampla reforma agrária e acesso a crédito barato para aqueles que querem plantar, combinado com a titulação das terras quilombolas e a abertura de frentes de trabalho coletivo em empresas estatais no campo controladas pelos operários agrícolas para o abastecimento de alimento às cidades. 
É fundamental defender a criação e manutenção de “cordões verdes” no entorno das grandes cidades, que não só combine empresas agrícolas estatais e repartição de terras de qualidade e boa localização aos camponeses pobres, mas que também amplie o potencial de solução do adensamento demográfico nas cidades e dê uma solução mais de fundo para acabar com os desastres humanitários e ecológicos provocados pela urbanização anárquica do capitalismo. 
Tanto o plano de obras públicas como o crédito barato aos camponeses pobres ou as empresas agrícolas estatais devem ser financiadas com o dinheiro hoje utilizado para pagar juros e amortizações da dívida pública. Esse programa, tomado com um todo, de conjunto deve estar a serviço de colocar de pé as batalhas parciais que vão forjar uma vanguarda que, a partir de sua experiência concreta na luta de classes, deve concluir a necessidade de expropriar a burguesia, planificar a economia e lutar pelo socialismo em nível internacional.

Todo apoio da luta dos sem terra! Pela retirada de todos os processos contra os trabalhadores sem terra! Pelo julgamento e punição de todos os assassinos! Pela expropriação de todo latifúndio!

sábado, 26 de janeiro de 2013

A QUESTÃO NEGRA E A REVOLUÇÃO BRASILEIRA - apontamentos iniciais




Alessandro de Moura,
doutorando em Ciências Sociais pela UNESP-Marília

O processo de desagregação do feudalismo, e o conseqüente desenvolvimento do mercantilismo, lançou bases para o inicio de uma nova fase de desenvolvimento da humanidade. Com o enfraquecimento e falência do feudalismo, enriquecimento dos comerciantes dos burgos, a servidão entrou em crise profunda.
No entanto, durante o processo de transição do feudalismo para o capitalismo, Portugal uma das principais potências marítimas estará também à frente da reabilitação da escravidão em outros marcos. Portugal será o pioneiro em sequestros e deportações em massa da população africana que será utilizada e vendida como mão de obra escrava. O trafico negreiro passou rapidamente a constituir um dos pilares da economia portuguesa, disseminando-se ainda para outros países da Europa e do continente americano, sendo que o Brasil foi o país que recebeu os maiores contingentes de africanos sequestrados e escravizados. O mercantilismo escravocrata criou os alicerces para o capitalismo. Cada centímetro do solo dos países escravagistas foram regados abundantemente com o sangue de negros e negras do continente africano. Tiveram seu sangue derramado para produzir algodão, fumo, açúcar, café, etc.
Após os sequestros e aprisionamento em massa, negros e negras eram então transportados de navios para locais onde eram traficados. Por conta das Grandes Navegações, a empresa mercantilista, já existia toda uma estrutura marítima, de circulação e de distribuição. Toda essa estrutura foi posta a serviço da escravidão. As viagens dos Navios Negreiros para o Brasil duravam por volta de 50 dias. As condições dos navios negreiros eram extremamente precárias e insalubres. Metade da população africana transportada morria nos navios negreiros.
Os negros e negras a todo o momento resistiam as prisões, sequestros e deportações. Isso desde a captura, transporte e sobretudo nos países onde eram mantidos em condição de escravo. A repressão contra os escravizados era brutal. Os Estados capitalistas nascentes e seus sócios menores, compreendendo o trabalho escravo como produtor de imensas riquezas, utilizavam-se de toda forma de terror possível para buscar submeter a população escravizada. Toda ordem de castigos e mutilações eram praticadas corriqueiramente como forma de impor medo a população africana dominada como forma de lhes desencorajar as rebeliões, resistência e fugas. Ainda assim, por toda parte, a população escravizada lutava dia-a-dia pela liberdade. Fugiam e formavam agrupações e comunidades, no Brasil, como sabemos, essas comunidades foram chamadas de quilombos.
Desta forma, a escravidão da população africana moderna, em conjunto com a expulsão dos camponeses das terras (quando as ovelhas devoravam homens e mulheres do campo), no seio do Mercantilismo, constituíram as bases primitivas para a edificação do capitalismo. Como destacava Malcolm X, os povos africanos sequestrados foram tornados cativos para edificar toda a riqueza da qual eram impedidos de usufruir. Nas palavras de Malcolm X
“Somos um povo que outrora era africano, foi seqüestrado e trazido para América. Nossos antepassados não foram peregrinos (...). Nós fomos trazidos aqui contra nossa vontade. Não fomos trazidos até aqui para sermos cidadãos, não fomos trazidos até aqui para desfrutar das benesses constitucionais das quais eles falam tão bem hoje”. (http://www.youtube.com/watch?v=RdYMvxs368s).
Conforme analisa Malcolm no mesmo vídeo foram 310 de trabalho escravo que amontoaram imensas riquezas para as classes dominantes americanas. Em suas palavras foram
"310 anos, nos quais cada dia suas mães e a minha, meu pai e os seus trabalhavam em troco de nada. E não como uma jornada de 8 horas/dia. Não existiam sindicatos naquela época. Eles trabalhavam do nascer ao por do sol. Começavam quando ainda estava escuro e iam noite adentro até não poderem enxergar mais. Eles nunca tiveram um dia de folga".
Malcolm X conclui corretamente que "Esses 310 anos de trabalho escravo são a minha e a sua contribuição para esta economia e sistema político em particular". No caso do Brasil foram 400 anos de escravatura que encheram as bolsas e os cofres das oligarquias e avolumaram as heranças da burguesia brasileira. Essa burguesia descendente do escravagismo herdou não apenas as gigantescas proporções de terras e latifúndios, mas também toda uma ordem patrimônio que empilhado a partir do trabalho dos povos africanos escravizados. Herdou também toda a estrutura politica e repressiva do aparato estatal escravocrata que continuou (e continua) sendo usado contra a população negra e seus descendentes e os setores mais pauperizados da classe trabalhadora.
Os escravocratas com toda a força de guerra de seu aparato estatal escravagista determinavam que apenas quando morressem é a população africana deixariam de ser escravos. O Estado Escravagista constituía uma verdadeira máquina de fazer cativos e extrair deles a maior riqueza possível, utilizando-se corriqueiramente de todas as formas de violência, tortura e assassinato que lhe conviesse para acumular riquezas. E como combater os Estados escravocratas e todas suas tradições racistas? Malcolm X tinha perspectiva muito clara sobre isso: 

"Façamos ele nos pagar o que nos deve. Vamos nos Unir! E se é isso que o negro quer, vamos nos juntar a ele. Vamos lhe mostrar como manter o esforço de batalha. Vamos lhes mostrar como lutar! Vamos lhe mostrar como causar uma verdadeira revolução!"

Também tomando tais processos, Karl Marx utilizava a categoria de estados escravistas para expressar o conteúdo dessas relações de dominação, entendendo sempre que toda sua acumulação primitiva dos Estados escravagistas derivava também da escravização. 
Embora Marx não tenha se dedicado extensivamente para teorizar sobre a escravidão, é certo que também nesse campo o autor deixou indicações muito importantes de como pensá-la. Constatava que, a população africana em condição de escravização, era quem produzia nos Estados Unidos seus principais produtos de exportação, "algodão, fumo, açúcar, etc.." e com isso a própria riqueza nacional. Analisava que eram os escravagistas, por meio de um partido escravagista exerciam hegemonia no Senado americano impunham as leis escravocratas a todo o país. Com tudo isso, os escravistas tinham o domínio do poder sobre a máquina do Estado. (A guerra civil norte-americana. In: Liberdade de imprensa, L&;PM, 2009). Aos 28 anos de idade, Marx analisava que, uma vez que o próprio sistema econômico e político era fundado sobre a escravidão, o fim da escravidão poderia levar a uma crise profunda do Estado americano.

"(...) no Brasil, nas regiões do sul da América do Norte. (...). A escravidão direta é tanto quanto o pivô em cima do qual nosso industrialismo dos dias de hoje faz girar a maquinaria, o crédito, etc. Sem escravidão não haveria nenhum algodão, sem algodão não haveria nenhuma indústria moderna. É a escravidão que tem dado valor às colônias, foram as colônias que criaram o comércio mundial, e o comércio mundial é a condição necessária para a indústria de máquina em grande escala. Conseqüentemente, antes do comércio de escravos, as colônias emitiram muito poucos produtos ao mundo velho, e não mudaram visivelmente a cara do mundo. A escravidão é conseqüentemente uma categoria econômica de suprema importância. Sem escravidão, a América do Norte, a nação a mais progressista, ter-se-ia transformado em um país patriarcal". (Carta de Karl Marx a Pavel Vasilyevich Annenkov, Paris Escrita em 28 de dezembro de 1846).

Desta forma, conclui ainda em 1846 que, como o sistema escravista constituía base dos estados "abolir com a escravidão seria varrer a América para fora do mapa". No entanto, em 1861 analisa que a única forma de manutenção da união do Estado americano, para se evitar a secessão, seria abolindo a escravatura.
Em suas analises sobre a guerra civil norte-americana (1861-1865), Marx continua defendendo que a escravidão é que dava base a todo alicerce a todo edifício do Estado. Segundo o autor, a própria Corte suprema dos Estados Unidos havia sido até então "a ferramenta mais serviçal dos senhores de escravos". O Estado americano torna-se um serviçal "de trezentos mil donos de escravos" implantando para isso uma "Constituição escravagista".
E é nesse perspectiva que Marx, como dirigente da Primeira Internacional, entendendo como candente a luta contra a escravidão, redige um documento oficial ao recém reeleito Abraham Lincoln (http://www.marxists.org/portugues/marx/1864/11/29.htm). A Internacional Comunista encarava a eleição de Lincoln como uma vitoria contra a "oligarquia de 300.000 proprietários de escravos. Marx e a Internacional argumentam que "a palavra de ordem reservada da sua primeira eleição foi resistência ao Poder dos Escravistas [Slave Power], o grito de guerra triunfante da sua reeleição é Morte à Escravatura".
Nessa brevíssima carta a Abraham Lincoln, Marx chega a criticar a classe operária americana, argumentando que o operariado permitiu que os trabalhadores e trabalhadoras do continente africano fossem submetidos a condição de escravos sendo "vendidos e dominados sem seu consentimento". De acordo com sua analise, a imposição de tal sistema brutalizado colocava em xeque toda a república americana, uma vez que sob o mesmo solo conviviam trabalhadores livres e africanos feitos de refém em terra alheia. Enquanto toda a população negra não estivesse livre, a própria sociedade americana também não o seria completamente. Segundo Marx

"Enquanto os operários, as verdadeiras forças [powers] políticas do Norte, permitiram que a escravatura corrompesse a sua própria república, enquanto perante o Negro — dominado e vendido sem o seu consentimento — se gabaram da elevada prerrogativa do trabalhador de pele branca de se vender a si próprio e de escolher o seu próprio amo, foram incapazes de atingir a verdadeira liberdade do trabalho ou de apoiar os seus irmãos Europeus na sua luta pela emancipação; mas esta barreira ao progresso foi varrida pelo mar vermelho da guerra civil" (http://www.marxists.org/portugues/marx/1864/11/29.htm).
Para Marx e a Internacional Comunista, a derrota da escravidão constituiria uma vitória para toda a classe trabalhadora. O que a classe trabalhadora fizesse em apoio à população africana, estaria fazendo também, e ao mesmo tempo, para si mesma. Isso porque entendia que, apenas articulando a luta contra a escravidão e opressão racial com a luta pelo socialismo, é que seria possível a "reconstrução de um mundo social".
Ou seja, para Marx era claro que a estruturação dos estados capitalistas no continente europeu e americano deu-se em base as incursões, sequestros e deportações da população negra. No continente africano conviviam uma serie de povos, etnias e grupos sociais. Com o desenvolvimento das Grandes Navegações inaugura-se novos patamares de relações entre a população européia e do continente africano. A coroa portuguesa, aristocratas e nobreza, já na segunda metade de 1400, começavam a escravizar negros africanos. Com as Grandes Navegações, Portugueses, Ingleses, Espanhóis, Franceses, Holandeses e Americanos financiavam guerras entre povos e etnias como forma de constituir prisioneiros e consumarem sequestros de amplos contingentes da população negra do continente africano.
Esses sequestrados seriam vendidos como mercadorias no continente europeu e americano. Em O capital, capitulo XXIV, Marx escrevia: "(...). A Inglaterra conseguiu a concessão de fornecer anualmente a América Espanhola, até o ano de 1724, 4.800 negros. Isto servia, ao mesmo tempo, para encobrir sob o manto oficial o contrabando britânico. Na base do trafico negreiro, Liverpool teve grande crescimento. (...) Liverpool empregava 15 navios no tráfico negreiro, em 1730; 53, em 1751; 74, em 1760; 96, em 1770, e 132, em 1972". (p. 878). Cada centímetro do solo dos países escravagistas foram abundantemente regados com o sangue da população africana escravizada. Ou seja, o capitalismo americano fincou bases sobre o trabalho escravizado. E mesmo com os processos de abolição, manteve-se a população africana em condissões precárias de vida. Como apontava Lenin em 1915, no texto Capitalismo e agricultura nos Estados Unidos da América (http://www.marxists.org/portugues/lenin/1915/agricultura/index.htm).

O Sul dos Estados Unidos foi escravista até que a guerra civil de 1861-1865 extinguisse a escravidão. Até o presente, o número de negros, que não ultrapassa 0,7 a 2,2% da população das regiões Norte e Oeste, representa no Sul 22,6 a 33,7% do total da população. A proporção de negros é de 10,7% para o conjunto dos Estados Unidos. É inútil falar da situação degradante a que são submetidos: sob este aspecto, a burguesia americana não é melhor que a de outros países. Após haver “libertado” os negros, ela se esforçou, com base no capitalismo “livre” e republicano-democrático, por restabelecer tudo o que fosse possível ser restabelecido, por fazer o possível e o impossível para oprimir os negros da maneira mais descarada e vil. (...). (p. 10). 

A saída apontada por Marx
É no texto Para a questão judaica, escrito em 1843, onde Marx começa a apontar uma saída para as resoluções das demandas democráticas, estas formulações são retomadas em A ideologia alemã. Ao analisar a questão judaica, Marx defende a liberdade de crença e de culto, afirmando que não cabe ao Estado legislar sobre a vida religiosa dos grupos sociais. Nessa discussão discute as diferenças substanciais entre a emancipação política e a emancipação humana. A emancipação política pode ser identificada como conquistas socio-humanas que podem ser alcançadas dentro da ordem vigente (como as reformas), enquanto que a emancipação humana é uma luta social travada para suplantar a ordem vigente (como as revoluções). O autor não contrapunha estas duas formas de emancipação social. Marx defende a necessidade de lutar e apoiar as demandas por emancipação política - liberdade religiosa - (mas que podemos estender para pensar também a luta por educação de qualidade, cotas, igualdade sexual, liberdade sexual, etc.). Para o autor as lutas por liberdade políticas são de grande importância, pois pretendem eliminar limitações pontuais imposta aos seres humanos, porém, destaca que devemos ampliar nossas perspectivas de emancipação social articulando as lutas por emancipação política (marcada pelos limites do status quo) às lutas pela emancipação humana, para o autor a sociedade capitalista é incorrigível, por isso a emancipação humana deve necessariamente dissolver o Estado, e com isso, a propriedade privada, o regime de salariato etc.
Grupos oprimidos e o Sujeito revolucionário
O fato de lutar frontalmente pelas liberdades democráticas que expandem as liberdades humanas pontualmente, não tira o foco do proletariado como sujeito revolucionário. A revolução socialista não é possível sem a centralidade e a independência do proletariado como sujeito social frente aos demais grupos sociais que se enfrentam e que são oprimidos pelo sistema capitalista.
O sujeito revolucionário continua sendo o proletariado, desde o Manifesto do Partido Comunista, Marx e Engels analisavam que a classe trabalhadora constituía o único sujeito social capaz de transformar as bases da sociedade. Assim desenvolvem a centralidade da classe operária para a revolução socialista. Para os fundadores da teoria da revolução socialista a classe trabalhadora é o único sujeito revolucionário capaz de implantar uma nova sociedade, conforme podemos apreender no Manifesto as seguintes causas reafirmam tais elementos: 1) a classe trabalhadora está concentrada em grandes contingentes nos pontos centrais do sistema capitalista; 2) Sua posição social na produção na sociedade capitalista faz com que adquira capacidade de organização e planificação da produção; 3) O proletariado vive da venda de sua força, recebem salários suficientes apenas para reproduzir suas condições básicas de existência, assim predomina grande homogeneidade de condições de vida; 4) Decorrente de sua maioria numérica e posição de produtor e organizador da produção, possui poder político de submeter todas as outras classes sociais; 5) Ao mesmo tempo em que cria um novo sistema de organização e trabalhão para si, cria também para todos. Tem-se da impossibilidade de criar um novo modo individual de apropriação dos frutos do trabalho. 6) A classe operária é internacional.
No caso da população negra, para uma revolução socialista no Brasil, é necessária uma fusão revolucionária entre o programa histórico do proletariado internacional e as demandas do povo negro.
Todo esse processo passou a receber maior atenção dos marxistas a partir da formação da III Internacional em 1919. Em continuidade com as reflexões de Marx contra a escravidão e seus desdobramentos, a Terceira Internacional Comunista, dirigida por Lênin e Trotski busca tomar a questão negra de forma revolucionaria. Nas resoluções do IV Congresso da Internacional de 1922, na seção “TESE SOBRE A QUESTÃO NEGRA” destacam que 

“Os financistas maníacos dos EUA, que exploram em seu território 12 milhões de negros, se dedica agora a tarefa de penetrar pacificamente na África”. (...) Há trezentos anos os negros norte-americanos foram arrancados de seu país natal, a África, e arrastados para a América onde tem sido objeto dos mais abjetos tratamentos e vendidos como escravos. Faz 250 anos, que trabalham sob o chicote dos proprietários norte-americanos. São eles que desmataram os bosques, construíram estradas, plantaram algodão, colocaram trilhos nas estradas de ferro e mantiveram a aristocracia confortável. Sua recompensa foi a miséria, a ignorância, a degradação. O negro não foi um escravo dócil, recorreu a rebelião, a insurreição, a fuga, tudo para recuperar sua liberdade. Mas seus levantes foram reprimidos com sangue. Através da tortura, foi obrigado a submeter-se. A imprensa burguesa e a religião se associaram para justificar sua escravidão. Quando a escravidão começou a competir com o trabalho assalariado e se transformou em obstáculo para o desenvolvimento da América capitalista, teve que desaparecer. (...) 3. A Internacional Comunista observa com satisfação que os operários negros explorados resistem aos ataques dos exploradores, pois o inimigo da raça negra é também dos trabalhadores brancos. Este inimigo é o capitalismo, o imperialismo. A luta internacional da raça negra é uma luta contra o capitalismo e o imperialismo. Com base nesta luta deve organizar-se o movimento negro. A Internacional Comunista (...) considera que é seu dever acolher e ajudar à organização internacional do povo negro em sua luta contra o inimigo comum. (...). 6. a) O 4º Congresso reconhece a necessidade de manter toda forma de movimento negro que tenha por objetivo enterrar e enfraquecer o capitalismo ou o imperialismo, ou deter sua penetração. b) A Internacional Comunista lutará para assegurar aos negros a igualdade de raça, a igualdade política e social”.

Aprofundando as reflexões do Quarto Congresso Da Terceira Internacional, Trotski apontava em 1939 que os trabalhadores e trabalhadoras brancos, bem como suas instituições, partido, sindicatos, etc... podem ser influenciados pela visão da classe dominante branca e racista, destacava que “Os trabalhadores qualificados que se sentem estabelecidos na sociedade capitalista ajudam a classe burguesa a dominar os negros e os trabalhadores não qualificados, que se encontram em um patamar muito baixo”. Desta forma, compreendia que a questão negra “É uma questão vital para o partido. É uma questão importante. É uma questão de se o partido está para se transformar em uma seita ou se é capaz de encontrar seu caminho até a porção mais oprimida da classe trabalhadora”.(L. Trotski, “Uma organização Negra", 1939). É justamente a essa perspectiva que devemos nos juntar. Sem a incorporação das demandas da população negra não será possível uma revolução no Brasil.

Monarquia e Igreja: carrascos dos índios e africanos
Mediante tais processos, também no Brasil, o hibrido Estado Monárquico constituir-se-ia como um Estado escravagista, amparado pelo conjunto de códigos legais definidos localmente pela Monarquia e pelas elites aqui estabelecidas que determinaram o código civil escravista legitimando torturas e castigos, com direito absoluto sobre a vida e morte da população indígena e africana sequestrada.
Também a Igreja somava-se as instituições escravistas. Conforme denota as Cartas de Padre Manuel da Nóbrega dirigida a D. João III, Rei de Portugal. Em carta datada de 14 de setembro de 1551 (Olinda - PE) o padre escreve "mande dar alguns escravos de G[u]iné hà cassa pera fazerem mantimentos, porque a terra hé tam fértil, que facilmente se manterame vestirão muitos meninos, se tiverem alguns escravos que fação roças de mantimentos e algodoais". Ainda em outra carta "Se El-Rei favorecer este e lhe fizer igreja e cassas, e mandar os escravos que digo (e me dizem que mandão mais escravos a esta terra, de Guiné; se assi for podia logo vir provisão pera mais tres meses ou quatro alem dos que a case tem)".
Também Frei Vicente, em apoio a instituição escravocrata, fazia campanha contra os negros e negras que se rebelavam, fugiam e formavam quilombos "informado o governador que um mocambo ou magote de negros de Guiné fugidos que estavam nos palmares do rio Itapucuru, quatro léguas do rio Real para cá, mandou lhes que fossem de caminho dar neles, e os apanhassem às mãos, como fizeram, que não foi pequeno bem tirar dali aquela ladroeira e colheita que ia em grande crescimento". Em outra carta Frei Vicente felicitasse pelo extermínio da africanos que estavam em fuga do cativeiro "foi Deus servido de dar aos nossos vitória com morte de duzentos contrários, fora trinta que tomaram vivos em duas canoas". Além disso, a Igreja utilizava a mão de obra africana para construir Igrejas para si.
Padre Antonio Vieira, em seu Sermão Vigésimo Sétimo do Rosário, para justificar a escravidão proclamava: "Sabei, pois, todos os que sois chamados escravos, que não é escravo tudo o que sois. Todo o homem é composto de alma (...) De maneira, irmãos pretos, que o cativeiro que padeceis, por mais duro e áspero que vos pareça, não é cativeiro total, ou de tudo o que sois, senão meio cativeiro. Sois cativos naquela metade exterior mais vil de vós mesmos, que é o corpo porém na outra metade interior e nobilíssima, que é a alma, principalmente no que a ela pertence, não sois cativos mas livres".

Brasil: uma elite em apuros
Ainda assim, durante a colônia a elite brasileira vivia sob dupla pressão, por um lado era pressionada pelo imenso contingente populacional de africanos e africanas sequestrados e escravizados que se rebelavam continuamente em busca de liberdade. Sendo que os negros e negras tornam-se rapidamente os braços e as pernas (e em muitos casos os cérebros) da elite colonial, coroa, nobreza e seus consortes. Sem a população africana a colônia não podia manter-se. Por outro, esta pequena elite colonial era também pressionada pelos imperativos do imperialismo, esta contradição renova-se durante a República seguindo até os dias de hoje. Sobre essa dominação objetiva constituíram-se as teorias raciais, como forma de fornecer um referendo cientifica para as relações sociais que já estavam a centenas de anos em curso.
No entanto, a população negra lutava com todas suas forcas contra a escravização, desde o momento dos sequestros no continente africano, mas também durante as longas viagens até o desembarque em terras alheias. A elite colonial torturava e assassinava-os por quaisquer motivos que lhe ocorressem, a população negra escravizada revidava, organizavam-se e se enfrentavam com fazendeiros, jagunços e capitães do mato. Nos países onde desembarcava continuavam as revoltas, fugas e todas formas possíveis de auto-organização e resistência. Também no Brasil, desde a chegada da população negra, os que conseguiram fugir criavam comunidades em regiões afastadas dos domínios da elite.
São inumeráveis os quilombos formados durante o período colonial. Mas cabe destaque ao Quilombo de Palmares, dirigido centralmente por Zumbi e Ganga Zumba. Este quilombo resistiu aos imperativos da coroa portuguesa por mais de 100 anos, enfrentou uma serie de expedições que tentavam destruí-lo e assassinar sua população. Por sua forma de auto-organização Palmares acabou por constituir-se quase como um “Estado paralelo” em relação à coroa. Tornou-se rapidamente local de esperança e refugio para os que conseguiam fugir das fazendas. Desta forma Palmares colocava em risco econômico e político a empresa colonial escravocrata e a própria monarquia que era estruturalmente dependente da escravidão.

Trabalhadores escravizados e livres se unem
Outro elemento que merece destaque é que, como aponta Badaro Mattos, também no Brasil, a escravidão coexistiu com o trabalho livre, haviam fábricas em que o os escravizados chegavam a ¼ do efetivo de trabalhadores. Ou seja, dentro de um mesmo estabelecimento mantinha-se mão de obra livre e escravizada. Essa mistura podia ser observada também em estaleiros, construções, carpintaria, ‘jornaleiros’, ‘marítimos’, nas ‘indústrias’, entre as ‘costureiras’, artesões, estivadores, carregadores de café, barqueiros, marinheiros, barbeiros, acendedores de lampiões, varredores de rua, etc. (Lamounier 1993: Badaro, 2004: 2007). Em diversas ocupações e profissões coexistia trabalho livre e escravizado.
O próprio Estado brasileiro era também proprietário de escravos e utilizava-se de seu trabalho para os serviços públicos, “o Estado, que possuía as maiores manufaturas do período, investia no treinamento em ofícios de seus “escravos da nação” (Badaro, 2004). Ainda, como destaca Maria Lúcia Lamounier (2008), “Os escravos eram também empregados em diversas obras públicas. O emprego de escravos do Estado e/ou de particulares e africanos livres (e/ou “emancipados”) na construção de estradas de rodagem era frequente. Além disso, no período 1850-1890, o Estado brasileiro se valerá da utilização em larga escala de mão de obra escrava na construção das ferrovias do país. Nas ferrovias trabalhavam também muitos imigrantes europeus, o que contribuía ainda mais para fomentar a auto-organização operária. Com tudo isso, as relações de solidariedade se aprofundavam entre trabalhadores escravizados e livres, o que intensificava a desaprovação da escravidão.
Desta forma, as lutas da população negra escravizada, sua organização e ação coletiva, influenciava diretamente os trabalhadores assalariados. Já em 1857, de acordo com Badaro (2004), 32 trabalhadores negros escravizados foram protagonistas de uma paralisação no trabalho. Para conter a paralisação acionou-se a policia que deteve os escravizados. Em outro artigo (2007), Badaro cita o protagonismo de João de Mattos que organizava paralisações e fugas de escravos em padarias. João de Mattos chegou a organizar o Bloco de Combate dos Empregados em Padarias. O Bloco tinha sede, estatuto e um lema Pelo pão e pela liberdade. O autor aponta ainda que durante o período escravista existiam sindicatos e associações operárias que tinham uma orientação abolicionista ativa, organizavam arrecadações para compra de alforria.
A população negra continuava sendo expulsa das terras onde trabalhavam, substituídos nos mais variados locais de trabalho. Os postos de trabalho que ocupava foram cedidos aos imigrantes, portugueses, italianos, etc... Conforme aponta Badaro (2004), “O fato é que os espaços deixados pelos escravizados foram ocupados por trabalhadores livres, muitos dos quais imigrantes, em especial portugueses, que já ocupavam uma fatia de cerca de 30% dos empregos de livres na cidade nos anos 1830”. Com isso, a população negra foi obrigada a viver nas matas, próximas a rios e vales, formaram novos quilombos. Outra parte manteve-se ou instalou-se nas cidades, ao redor dos centros urbanos formaram comunidades, bairros e favelas, ainda, os setores mais precarizados passaram a constituir setores expressivos dos pobres urbanos.  Assim, fica claro que foram as políticas publicas, dirigidas pela elite colonial, e depois pela burguesia brasileira durante todo o século XX que determinou o racismo.
Mesmo depois da abolição a auto-organização, revoltas e rebeliões negras continuaram a serem desencadeadas. A população negra e seus descendentes tomaram parte em todos os processos de luta de classes mais agudos da sociedade brasileira. Desde Canudos, Contestado, Revolta da Vacina, Revolta da Chibata. Todas sufocadas com muita violência pelas classes dominantes por meio de seu Estado e aparato repressivo, como pode-se observar no caso da “Revolta da Chibata deflagrada em novembro de 1910, influenciada pelo Encouraçado Potemkim, esta a Revolta teve como uma das principais lideranças o marinheiro negro João Cândido. Nesse período a marinha era composta por grande numero de marinheiros negros. Esta Revolta negra foi duramente reprimida, o Estado utilizou-se de grande violência, com fuzilamentos e desterros, os debelados sobreviventes foram mandados para Ilha das Cobras. Segundo João Quatin de Moraes
Entre 1.000 a 2.000 marinheiros foram sumariamente expulsos da Armada e todos os dirigentes dos dois levantes foram presos. Lavados a um imundo calabouço, os dezoito presos foram intoxicados com cal, abundantemente derramado na cela sufocante sob o cínico pretexto de desinfetá-la. Quando, na manhã de 25 de dezembro, talvez em atenção a data, a cela foi aberta, dezesseis cadáveres, alguns já apodrecendo, a entulhavam. Um dos dois sobreviventes era João Candido, o principal dirigente da rebelião. Naquele mesmo dia de Natal, deixava o rio de janeiro o navio satélite, levando nos porões uma carga humana  de cerca de 500 deportados para a Amazônia, marginais na maioria, mas também 105 marinheiros considerados instigadores da trágica revolta. Na longa viagem, nove dos principais “cabeças” do movimento foram fuzilados.
Mesmo frente aos processos brutais de repressão a população negra continua a organizar-se. Em 1912, eclode no Sul a “Guerra do contestado. No dia 4 de maio de 1912 acontece uma nova greve de trabalhadores agrícolas contra o patronato rural em Ribeirão Preto envolvendo 70 famílias. E em 1913 desencadeia-se outra greve de colonos na Região que envolve 10 mil colonos (PINHEIRO & HALL, p.120). A população negra foi para as ruas nas greves de 1917 em São Paulo, nas greves gerais no Rio de Janeiro em 1919, compunham a Coluna Prestes, nas inúmeras revoltas camponesas, movimentos de carestia, piquetes, etc... No ascenso das décadas de 1950 e 1960 a população negra pega em armas no campo, constituindo parte importante das Ligas Camponesas e das revoltas em Trombas e Formoso. Na marinha organizam rebeliões e colocam suas armas a serviços dos trabalhadores e trabalhadoras em greve.
Durante o período escravista existiam sindicatos e associações operárias que tinham uma orientação abolicionista ativa (organizando fugas, compra de alforrias e até tentativa de controle operário no caso dos gráficos) e também imprime diversas marcas nos anos posteriores à abolição que são chave recuperarmos para a história dos negros e da classe operária brasileira bem como, para posteriormente, entender como estas relações foram se alterando e esmaecendo.
Além da pressão interna cotidiana das revoltas, rebeliões, enfrentamentos, fugas e formação de quilombos que desafiavam constantemente a ordem escravocrata, a elite colonial ainda era pressiona de outro lado pelo imperialismo europeu, a revolução industrial impunha o regime de salariato e buscava mercado para seus produtos. Essa pressão crescia na medida em que a Inglaterra se fortalecia como potencia imperialista mundial.
Mesmo após a abolição, as pressões do imperialismo e dos levantes da população negra continua, como podemos observar na Revolta da Vacina, Contestados e Revolta da Chibata. Cabe destacar que a abolição foi imposta por duas forcas, uma interna e outra externa, sendo a interna constituída justamente pelas revoltas e rebeliões negras, e a externa pelo imperialismo Inglês e Frances, que queriam novos mercados consumidores. Contraditoriamente, mesmo sendo fruto das lutas do povo negro, com a abolição o Estado indenizou os fazendeiros escravocratas, e não as vitimas sequestradas extraditadas e feitas escravas.
Após o processo abolicionista, a nascente burguesia brasileira buscou agarrar-se as teorias raciais para justificar a desigualdade entre negros e brancos. Ainda em 1850 criou a lei de terras para garantir que a população negra não plantasse e colhesse pra si mesma, pois isso levaria a uma redução drástica da mão de obra no pais (lei semelhante era discutida nos E.U.A no mesmo período). Sendo que, após a abolição, a população negra foi expulsa de seus locais de trabalho, no entanto, mesmo que quisessem, não podiam voltar para o continente africano. Não receberam qualquer contrapartida ou indenização do Estado ou dos fazendeiros que eram os responsáveis pelo seu sequestro e escravização. Contrario a isso, com a abolição, os fazendeiros escravocratas foram quem receberam indenizações do Estado. Isso porque o Estado, latifundiários e fazendeiros escravocratas eram sócios inseparáveis. Todo aparato estatal atuava conscientemente contra a população negra. Assim, a própria burguesia brasileira já nasce com suas mãos cheias de sangue, pois essa burguesia nasce do campo, da empresa colonia, e logo dos mercado escravocrata. A acumulação primitiva de capital por essa burguesia só foi possível por conta dos imensos lucros acumulados com o trabalho escravo e com o trafico negreiro.
A população negra continuava sendo expulsa das terras onde trabalhavam, substituídos nos mais variados locais de trabalho, foram obrigados a viver nas matas, próximas a rios e vales, formaram novos quilombos. Outra parte manteve-se ou instalou-se nas cidades, ao redor dos centros urbanos formaram comunidades, bairros e favelas, ainda, os setores mais precarizados passaram a constituir setores expressivos dos pobres urbanos.
Como herança desse processo, a população negra ocupa os postos de trabalho mais precários da sociedade, recebe menores salários e são as vitimas escolhidas pela policia e por todo aparato repressivo das classes dominantes brasileiras. Assim, fica claro que foram as políticas publicas, dirigidas pela elite colonial, e depois pela burguesia brasileira durante todo o século XX que determinou o racismo. Nesse sentido, é totalmente correta a formulação de Malcolm-X de que "Não existe capitalismo sem racismo".
Longe de qualquer perspectiva de passividade, enquanto existiu escravidão existiu resistência da população negra escravizada. Mesmo depois da abolição a auto-organização, revoltas e rebeliões negras continuaram a existir. A população negra e seus descendentes tomaram parte em todos os processos de luta de classes mais agudos da sociedade brasileira. Desde Canudos, Contestado, Revolta da Vacina, Revolta da Chibata, mas também nas greves de 1917 em São Paulo, nas greves gerais no rio de janeiro em 1919, compunham a Coluna Prestes, nas inúmeras revoltas camponesas, movimentos de carestia, piquetes, etc... No ascenso das décadas de 1950 e 1960 a população negra pega em armas no campo, constituindo parte importante das Ligas Camponesas e das revoltas em Trombas e Formoso. Na marinha organizam rebeliões e colocam suas armas a serviços dos trabalhadores e trabalhadoras em greve.



Na segunda metade da década de 70, ligado ao descontentamento generalizado contra a ditadura a ao ascenso proletário e camponês em curso, emergiu um poderoso movimento negro, até então inédito na história do Brasil desde a abolição. Foi um movimento que, influenciado pelas lutas de libertação das colônias negras na África (Angola, Guiné Bissau, Moçambique etc.) e pelos movimentos de Martin Luther King, Macom X e dos Panteras Negras nos EUA, surgiu em várias dimensões, não só político-sociais, mas também culturais.
Nos bairros da periferia do Rio de Janeiro, o funk transforma-se em um instrumento de afirmação da identidade negra, juntamente com uma forma própria de vestir, pentear o cabelo (“Black Power”) etc. Revalorizam-se as religiões de origem africana, os filhos de negros começam a ser batizados com nomes africanos e as letras de samba passam a expressar a identidade negra em maior medida. É nesse momento histórico que surgem grupos que buscam reviver a cultura afrodescendente através dos movimentos culturais pan-africanistas e chega a se desenvolver uma ideologia “anti-miscigenação”, na qual os negros eram estimulados terem relações apenas com negros.
Se por um lado o movimento negro dos anos 30 foi tão ou mais massivo que o dos anos 70, ao contrário daquele primeiro, que havia sido atraído para ideologias de inspiração fascista, esse novo movimento se identificava com as lutas operárias e populares em curso contra a ditadura, com as idéias e as organizações de esquerda. É nesse momento que surge o primeiro questionamento mais profundo à ideologia da “democracia racial”, contestada como um instrumento de escamoteamento do racismo. O mito da Princesa Isabel como “libertadora” e do 13 de Maio como dia da “libertação” é pisoteado, e em seu lugar emerge a história do Quilombo de Palmares e do dia da morte de Zumbi, 20 de Novembro como referência de luta. Ainda, no âmbito organizativo, em 1978 fundam o MNU (confira Petrônio DOMINGUES, 2007: 2008).
A emergência desse movimento negro está profundamente ligada à política repressiva criada pela ditadura militar para conter o enorme agravamento do problema da moradia a partir da explosão das favelas como subproduto do enorme êxodo rural nas décadas de 50, 60 e 70, agravado em função do boom de crescimento econômico nas cidades durante o “milagre brasileiro”, o qual contribuiu para o desenvolvimento do novo proletariado urbano que vai protagonizar o ascenso grevístico que se desenvolve a partir de 1978.
Os grupos de extermínio paramilitares criados pela ditadura utilizando policiais tinham como função primordial, além da perseguição e do assassinato a operários combativos, a imposição do clima de terror nas favelas contra o povo pobre e negro para impedir a organização e a ação política dos setores mais postergados do proletariado, submetidos a condições de vida humilhantes que provocavam explosões sociais permanentes.

O “marxismo” do PCB e a questão negra
No Brasil funda-se em 1922 o PCB, este partido em toda sua historia jamais incorporou as lutas e demandas da população negra em sua estratégia. Octávio Brandão, um dos principais dirigentes do PCB escrevia entre 1924 e 1926 no Agrarismo e Indrustrialismo que no Brasil havia “uma mistura desordenada de raças e sub-raças”. No marco de alianças intencionada pelo PCB não se considera a população negra como sujeito político, abandonado a defesa de suas demandas históricas, desconsiderando que tal população constitui maioria da classe trabalhadora nacional, sem a qual não se pode realizar uma revolução proletária. Diametralmente oposto a isto, para Brandão “O trabalhador rural negro, proveniente do escravo, exatamente como o vilão-servo da Idade Média”. (p. 50). Caio Prado Junior, no Formação Econômica do Brasil Contemporâneo classifica a população negra como “boçais”, desprovidos de técnicas etc.
O PCB nunca consegui incorporar as demandas da população negra como parte de sua estratégia, pois foi sempre refém de setores da burguesia descendente dos escravocratas. Devemos levar em conta que o PCB seguia as determinações da Internacional Comunista stalinizada, que considerava que nos países coloniais e semi-coloniais os PCs deveriam fazer alianças com setores da burguesia para livras estes países dos resquícios feudais. Por conta dessa estratégia etapista, o PCB ao invés de compreender as demandas da população negra e seus descentes como parte fundamental para desencadear uma revolução no país, entendia como fundamental o apoio de setores da burguesia dita “progressista”. Se tomasse como fundamentais as demandas da população negra no campo, seria necessário romper com toda ordem de latifundiários e patrões agrícolas. O PCB não queria isso, pois buscava alianças com parte desses. Assim, nunca pôde empreender as lutas sociais baseando-se na independência de classe.
Seguindo esta estratégia de adaptação a setores da burguesia agrária, urbana e financeira, o PCB deu as costas as demandas do povo negro do campo, das cidades e periferias, ainda em momentos de ascenso buscava freiar a auto-organização do povo negro no campo e nas cidades, como o PCB depositava esperanças em setores da burguesia, como se estes setores fosse realizar as demandas históricas do povo negro com sua estratégia etapista, ainda hoje esse partido não tem um balanço adequado sobre a questão negra. Ainda hoje é comum deslegitimar as demandas e lutas negras como formas que causam dispersão e que não servem a nada para a emancipação humana.

Uma saída revolucionaria para a questão negra
A população negra constitui parte fundamental do proletariado brasileiro. A esmagadora maioria da população negra brasileira é proletária, está distribuída no mais variados ramos da produção, distribuição e circulação de mercadorias. No entanto, sua ampla maioria está concentrada nos trabalhos mais precários e mal remunerados da sociedade brasileira, constituem os setores mais oprimidos e explorados da classe trabalhadora, constituem certamente a maior parcela do exército industrial de reserva. São a maioria nas periferias, favelas, morros, etc. Constituem maioria da população abaixo da linha da pobreza. São os maiores alvos da policia, constituindo a maioria dos assassinados pela policia e violência urbana. No campo, tanto os trabalhadores rurais como os quilombolas são os principais alvos dos fazendeiros, agronegócio e de seus jagunços. Podemos intuir que uma parcela minoritária está concentrada nas indústrias do país. Dentre as principais demandas da população negra está a reforma agrária, reforma urbana, fim da repressão e opressão policia, igualdade econômica social e combate ao racismo.
Sem incorporar todas essas demandas ao programa socialista é impossível conseguir a unidade das fileiras da classe trabalhadora, e assim, construir a hegemonia proletária socialista. Devemos nos somar na defesa das demandas particulares (direitos civis, direitos políticos, interesses culturais, interesses econômicos) buscando fundi-las com o programa histórico do proletariado. As condições objetivas da população negra no Brasil devem ser compreendidas como condições objetivas de setores da classe em si. É necessário compreender sua potencialidades agregadoras para unidade do proletariado. Sem essa compreensão, os revolucionários não serão capazes de transformar as percepções da classe em si, e toda sua potencialidade, em classe para si.
Classe em si diz respeito as condições objetivas, concretas, reais impostas as classes sociais. Enquanto classe para si diz respeito as potencialidades inerentes da classe. Ou seja, além das percepções objetivas, a compreensão das potencialidades resolutivas que as condições objetivas predispõem e os sujeito coletivo pode implementar para si sobre sua própria hegemonia. Ou seja, como sugerimos anteriormente, para uma revolução socialista no Brasil, é necessária uma fusão revolucionária entre o programa histórico do proletariado internacional e as demandas do povo negro.
Ao invés de entendemos as demandas da população negra como campanhas pontuais é necessário compreender que sem a auto-organização e mobilização do povo negro não pode haver uma revolução socialista no Brasil. Tanto por ser o maior país de população negra fora da África como por se encontrar em uma condição de elo débil da cadeia imperialista que tem nos EUA seu principal hegemón, os negros brasileiros podem e devem colocar-se a tarefa de ser vanguarda da luta pela emancipação do povo nego subjugado pelo imperialismo tanto na África como em todos os demais países do mundo para os quais foram deportados. Esse ponto de vista internacional para a luta negra foi completamente perdido e é necessário ser resgatado.
Devemos partir de que a luta contra a opressão racial ao povo negro na história do movimento operário brasileiro nunca foi encarada como uma tarefa que deveria ser resolvida pela ação independente da casse trabalhadora através de suas organizações de massa, baseada nos métodos da luta de classe e da hegemonia proletária. Além de lutar pelas demandas imediatas do povo negro (emprego, cotas, saúde, moradia, educação), devemos seguir denunciando as formas descaradas de racismo e o racismo encoberto pelo discurso da “democracia racial”, deve necessariamente partir também de uma crítica marxista às distintas vertentes da política de ações afirmativas e a como essas são encaradas pelas correntes que se reivindica parte da esquerda.
Frente ao reacionarismo das classes dominantes, uma corrente revolucionária deve estar na primeira linha de frente em defesa até mesmo das pequenas demandas concedidas pelo governo através das ações afirmativas caso essas estejam ameaçadas de serem atacadas. Entretanto, essa defesa deve se dar com os métodos da luta de classes – combatendo todo método conciliador que aceita restringir sempre um pouco mais as já parcas migalhas para chegar a acordos pacíficos com as elites racistas do país –, não pode se confundir em nenhum milímetro com o programa e a estratégia reformista dos que defendem as ações afirmativas. Para nós, as demandas mínimas específicas do movimento negro devem se colocar no marco de direitos universais que beneficiem toda a população negra, em especial a maioria mais pobre. Na medida em que são encaradas como demandas de direitos universais, as reivindicações mínimas do povo negro adquirem imediatamente um caráter mobilizador da luta de classes, pelo qual apoiamos incondicionalmente tais demandas.
Nesse marco, a principal demanda que hoje deve impulsionar um programa de luta contra a opressão é o fim do trabalho precário na cidade e no campo, com a incorporação dos terceirizados, temporários e informais como parte das empresas em que trabalham (sem necessidade de concurso no caso do serviço público), com salários e direitos iguais para trabalhos iguais e um salário mínimo equivalente ao do Dieese; entendendo que os mais beneficiados por essas medidas não serão os trabalhadores mais organizados que se encontram filiados aos sindicatos mais fortes, mas sim a maioria negra do país, que sofre com os piores trabalhos.
A segunda tarefa essencial pela qual devemos lutar é para que os sindicatos da esquerda tomem para si o problema das enchentes e das favelas em todo ano assola o país, impulsionando uma campanha pela expropriação (sem indenização) dos imóveis destinados à especulação imobiliária e por um plano de obras públicas controlado pelos sindicatos que acabe com as favelas e as enchentes, dando condições de moradia digna para todos, gerando empregos massivos ao mesmo tempo. E como terceira tarefa essencial, devemos lutar para que os sindicatos da esquerda impulsionem uma campanha permanente contra a repressão policial ao povo negro e pobre nas favelas, defendendo a dissolução da polícia e a criação de organismos de autodefesa ligados aos sindicatos e associações de moradores.
Por último, os sindicatos da esquerda anti-governista devem defender uma ampla reforma agrária e acesso a crédito barato para aqueles que querem plantar, combinado com a titulação das terras quilombolas e a abertura de frentes de trabalho coletivo em empresas estatais no campo controladas pelos operários agrícolas para o abastecimento de alimento às cidades. Ligado ao anterior, é necessário defender a criação de “cordões verdes” no entorno das grandes cidades, que não só combine empresas agrícolas estatais e repartição de terras de qualidade e boa localização aos camponeses pobres, mas que também amplie o potencial de solução do adensamento demográfico nas cidades e dê uma solução mais de fundo para acabar com os desastres humanitários e ecológicos provocados pela urbanização anárquica do capitalismo.
Tanto o plano de obras públicas como o crédito barato aos camponeses pobres ou as empresas agrícolas estatais devem ser financiadas com o dinheiro hoje utilizado para pagar juros e amortizações da dívida pública. Esse programa, tomado com um todo, de conjunto deve estar a serviço de colocar de pé as batalhas parciais que vão forjar uma vanguarda que, a partir de sua experiência concreta na luta de classes, deve concluir a necessidade de expropriar a burguesia, planificar a economia e lutar pelo socialismo em nível internacional.
Referência
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